A natureza da linguagem teológica
Fazer teologia é “falar a respeito de Deus”. No entanto, como é possível descrever ou discutir algo sobre Deus, utilizando uma linguagem humana? Wittgenstein questiona intensamente este aspecto: se nossas palavras não conseguem descrever o aroma característico do café, como podem tratar de algo tão sutil quanto Deus?
ANALOGIA
Talvez a idéia, mais elementar, que sirva de fundamento para a resposta que a teologia dá a esse tipo de questão, seja aquela normalmente conhecida como “o princípio da analogia”. O fato de que Deus criou o mundo aponta para a existência de uma fundamental “analogia do ser” entre o ser de Deus e o mundo (analogia entis). Existe uma idéia de continuidade entre Deus e o mundo, devido à expressão do ser de Deus nos demais seres e no mundo. Por esse motivo, é legítimo o uso de entes que são parte da criação como analogias para representar Deus. Ao agir dessa forma, a teologia não está reduzindo Deus à esfera da criação, mas está simplesmente afirmando a existência de uma semelhança ou correspondência entre Deus e um determinado ente da criação, o que permite que esta última funciona como evidência que aponte para Deus. Um ente que é parte da criação pode ser como Deus, sem que seja idêntico a Deus. Consideremos a seguinte afirmação: “Deus é nosso pai”. Tomás de Aquino alega que devemos entender essa afirmação no sentido de que Deus é como a figura humana de um pai. Em outras palavras, Deus é semelhante a um pai. Em alguns aspectos Deus apresenta essa semelhança, embora em outros aspectos essa semelhança não exista. Existem, porém, pontos de genuína semelhança. Deus cuida de nós, assim como os pais cuidam de seus filhos (veja Mt 7.9-11). Deus é a fonte suprema de nossa vida, assim como foram nossos pais que nos deram vida. Deus exerce autoridade sobre nós, assim como fazem nossos pais. De igual modo, podemos encontrar alguns pontos de genuína diferença. Deus não é, por exemplo, um ser humano. Da mesma forma, embora todo ser humano tenha necessariamente uma mãe, isso não implica a necessidade da existência de uma mãe divina, i.e., de dois deuses. A tese que Tomás de Aquino está tentando defender é bem simples. Deus, ao se revelar, lança mão de imagens e idéias relacionadas a nossa existência cotidiana, contudo, isso não reduz Deus ao contexto de nossa existência cotidiana. Dizer que: “Deus é nosso pai”, não significa dizer que Deus seja exatamente um outro pai igual ao que temos nesse mundo. Também não significa que nós devemos conceber a Deus como alguém do sexo masculino (vide pp. 315-317). Antes, significa que o fato de pensar em nossos pais nos ajuda a pensar sobre Deus. Essas figuras representam analogias. E como todas as analogias, elas são imperfeitas, apresentam falhas. Entretanto, continuam sendo formas extremamente úteis e intensas de pensar a respeito de Deus, que permite que usemos o vocabulário e as imagens de nosso próprio mundo para descrever algo que se encontra muito além dele. Ao dizer que “Deus é amor”, estamos nos referindo a nossa própria capacidade de amar, a fim de tentar imaginar esse amor em sua forma plena e perfeita na pessoa de Deus. Ao fazer isso não estamos reduzindo o “amor de Deus” à esfera do amor humano. Antes, estamos sugerindo que o amor humano aponta para o amor de Deus, o qual, ainda que de uma forma bastante limitada, pode ser refletido pelo amor humano. No entanto, como todos sabemos por experiência própria, as analogias falham em certos pontos. Chega um certo ponto em que elas não podem ser levadas adiante. Como sabemos quando elas falham? Para ilustrar este ponto, analisaremos um exemplo de uma outra área da teologia, antes de prosseguir na busca de uma resposta. O Novo Testamento conta-nos que Jesus deu sua vida em “resgate” por muitos (Mc 10.45; lTm 2.6). O que significa essa analogia? O uso comum da palavra “resgate” sugere três idéias:
1 LIBERTAÇÃO
. Um resgate é algo que obtém a liberdade de alguém que se encontra preso. Quando alguém é seqüestrado e exige-se um resgate, o pagamento desse resgate leva à libertação daquele que foi sequestrado.
2 PAGAMENTO
. Um resgate representa uma soma em dinheiro que é pago pela libertação de uma pessoa.
3 ALGUÉM A QUEM ESSE RESGATE É PAGO
. Normalmente, paga-se o resgate à pessoa que mantém preso o sequestrado, ou para um intermediário. Assim, quando falamos na morte de Jesus como “resgate” pelos pecadores, o qual foi pago por muitos, parece que essas três idéias estão aí implícitas. No entanto, todas essas idéias encontram-se nas Escrituras? Não há dúvidas de que o Novo Testamento proclama que fomos libertados da escravidão do pecado por intermédio da morte e da ressurreição de Jesus. Fomos libertados da escravidão do pecado e do medo da morte (Rm 8.21; Hb 2.15). Também está bem claro que o Novo Testamento entende a morte de Jesus como o preço que tinha de ser pago para que alcançássemos nossa libertação (ICo 6.20; 7.23). Nossa libertação é algo precioso e que envolve um alto custo. Nesses dois aspectos, o uso da palavra “redenção” nas Escrituras corresponde a seu uso comum. Mas o que dizer a respeito do terceiro aspecto? Não há evidências no Novo Testamento de que a morte de Jesus foi o preço pago a uma pessoa específica ou a uma força espiritual determinada (como o diabo, por exemplo), para que pudéssemos ser libertos. No entanto, alguns escritores dos quatro primeiros séculos do cristianismo, assumiram que era possível forçar essa analogia ao seu limite máximo e declararam que Deus havia nos libertado do poder do diabo, oferecendo Jesus como preço de nossa libertação (vide pp. 475-477). Essa idéia aparece repetidamente nas discussões patrísticas sobre o significado da morte de Cristo. Contudo, precisamos questionar se ela não se baseia na utilização de uma analogia além do limite aceitável. Portanto, como podemos saber se uma analogia foi levada longe demais? Como podemos testar os limites dessas analogias? Essas questões têm sido discutidas ao longo da história cristã. No século XX, uma importante discussão sobre esse aspecto pode ser vista na obra Christian discourse: some logical explorations [Discurso cristão: algumas explorações lógicas] (1965), escrita por um filósofo da religião, um inglês chamado Ian T. Ramsey, que apresenta a idéia de que modelos ou analogias não atuam de uma forma independente, mas interagem entre si, qualificando-se mutuamente. Ramsey alega que as Escrituras não nos fornecem uma única analogia (ou “modelo”) para Deus ou para a salvação, mas, antes, fornece-nos uma grande variedade de analogias. Cada uma dessas analogias e modelos esclarecem certos aspectos de nossa compreensão de Deus, ou da natureza da salvação. No entanto, essas analogias também interagem umas com as outras. Elas modificam umas às outras. Elas ajudam-nos a entender os limites de outras analogias. Nenhuma analogia ou parábola esgota-se em si mesma; tomadas em seu conjunto, no entanto, todas essas analogias e parábolas potencializam-se, dando-nos uma compreensão mais abrangente e consistente de Deus e da salvação. Um exemplo dessa interação pode esclarecer esse ponto. Tomemos as analogias do rei, do pai e do pastor. Cada uma delas transmite-nos a idéia de autoridade, sugerindo que isso possui importância fundamental para nossa compreensão de Deus. No entanto, os reis que conhecemos, muitas vezes, comportam-se de maneira arbitrária, pois nem sempre agem em defesa dos interesses de seus súditos. Existe a possibilidade de que a analogia de Deus com rei seja mal-interpretada, sugerindo portanto que Deus é uma espécie de tirano. No entanto, a terna compaixão de um pai para com seus filhos, louvada nas Escrituras (SI 103.13-18), e a plena dedicação de um bom pastor pelo bem-estar de seu rebanho (Jo 10.11), mostram para nós que a idéia de Deus tirano não traduz o significado pretendido pela analogia do rei. A autoridade deve ser exercida com ternura e sabedoria. Logo, a doutrina da analogia de Tomás de Aquino é fundamental para o modo como concebemos a Deus. Ela esclarece a maneira pela qual Deus se revela a nós por meio de analogias e imagens nas Escrituras, permitindo-nos compreender como Deus pode estar acima deste mundo e, ao mesmo tempo, ser revelado neste mundo e por intermédio deste mundo. Deus não é um objeto ou alguém que exista no espaço e no tempo; no entanto, essas pessoas e objetos que conhecemos no tempo e no espaço em que vivemos podem nos ajudar a aumentar nosso apreço pelo caráter e pela natureza de Deus. Deus, que é infinito, pode se revelar por meio de palavras humanas e imagens finitas.
METÁFORA
A exata natureza das diferenças existentes entre as analogias e as metáforas ainda é alvo de controvérsias. Aristóteles definiu metáfora como o processo que envolve “o uso de uma palavra, por transferência, cujo uso originário designa outro objeto ou qualidade”. Tão ampla é essa definição que abrange quase todas as figuras de linguagem, inclusive a analogia. Atualmente, a palavra “metáfora” teria uma acepção bem diferente, em que a definição a seguir pode ser bastante útil. A metáfora é uma maneira de falar sobre uma coisa em termos que sugerem uma outra. Ela é, para usar a famosa frase de Nelson Goodman, “uma questão de atribuir um novo significado a uma palavra conhecida”. Nesta definição, claramente, inclui-se a analogia; portanto, qual seria a diferença entre analogia e metáfora? Uma vez mais é necessário observar que não existe consenso quanto a esta questão. Cada escritor oferece sua própria definição, que com freqüência refletem seus próprios interesses. Talvez uma solução razoável para o problema poderia ser a seguinte definição: as analogias parecem ser apropriadas, ao passo que as metáforas envolvem uma primeira impressão de surpresa ou incredulidade. Por exemplo, considere essas duas declarações:
1 Deus é sábio.
2 Deus é um leão.
No primeiro caso, está se afirmando a existência de uma ligação analógica entre a natureza de Deus e a noção humana de “sabedoria”. Isso sugere que, tanto na esfera lingüística como na esfera ontológica, existe um paralelo direto entre as noções humana e divina de sabedoria. A sabedoria humana serve como analogia da sabedoria divina. Essa comparação não nos causa nenhum tipo de surpresa.
No segundo caso, a comparação pode vir a causar um certo grau de consternação. Parece não ser apropriado comparar Deus a um leão. Quaisquer que sejam as várias semelhanças que possam existir entre Deus e um leão, logicamente também existem muitas diferenças. Para alguns escritores modernos, uma metáfora combina semelhanças e diferenças, enfatizando tanto a existência de paralelos quanto de divergências entre os dois objetos comparados. Com esses aspectos em mente, examinaremos três características das metáforas que têm atraído a atenção da área da teologia em décadas recentes.
1 As metáforas envolvem tanto semelhanças como diferenças entre as duas coisas que estão sendo comparadas. Talvez seja por essa razão que alguns escritos recentes — particularmente os de autoria de Sallie McFague — têm dado ênfase à natureza metafórica da linguagem teológica, em vez de sua natureza analógica. Como McFague diz:
A metáfora sempre tem o caráter de “ser” e “não ser”: uma declaração é feita mais como um provável relato do que como definição. Isto é, ao dizer que “Deus é mãe”, não se pretende definir Deus como mãe, nem afirmar a existência de uma identidade entre os termos “Deus” e “mãe”, mas sim sugerir que consideramos aquilo sobre o que não sabemos como falar - ou seja, Deus — por meio da metáfora da mãe. A suposição aqui é que tudo o que se fala sobre Deus é indireto: nenhuma palavra ou frase refere-se diretamente a Deus, pois a linguagem usada com relação a Deus somente pode se referir a ele por intermédio do expediente de recorrer-se a uma designação originariamente relacionada a outro ser. Falar de Deus como mãe é convidar-nos a considerar algumas qualidades associadas à maternidade de forma parcial, embora talvez inspirada, para falar sobre certos aspectos do relacionamento de Deus conosco. v
Falar de “Deus como pai” deveria ser visto como metáfora, em vez de analogia, implicando na existência de diferenças significativas entre Deus e a figura de um pai, em vez de (como no caso da analogia) uma linha direta de semelhanças.
2 As metáforas não podem ser reduzidas a afirmações definitivas. Talvez a característica mais atrativa da metáfora para a teologia cristã seja o seu caráter aberto. Embora alguns críticos literários tenham sugerido que as metáforas possam ser reduzidas a um conjunto de expressões literais equivalentes, outros têm insistido no fato de que nenhum limite pode ser estabelecido no âmbito da comparação. Assim, a metáfora de “Deus como pai” não pode ser reduzida a um conjunto de declarações específicas sobre Deus, que sejam válidas para todos os tempos e lugares. A metáfora busca ser sugestiva, permitindo aos futuros leitores e intérpretes encontrar nela um novo significado. A metáfora não é simplesmente uma descrição elegante ou uma frase memorável sobre alguma coisa já conhecida. E um convite à descoberta de novos significados, que outros podem ter negligenciado ou esquecido.
3 Em geral, as metáforas apresentam traços emocionais bastante fortes. As metáforas teológicas são capazes de expressar dimensões emocionais da fé cristã, de maneira a torná-las apropriadas à adoração. Por exemplo, a metáfora de “Deus como luz” tem poderosas implicações, como o sentido de iluminação, pureza, e glorificação. ian G. Barbour sintetiza esse aspecto da linguagem metafórica da seguinte maneira:
Quando as metáforas poéticas são usadas apenas momentaneamente em um contexto, em benefício de uma idéia ou percepção imediata, os símbolos religiosos tornam-se parte da linguagem de uma comunidade religiosa em suas Escrituras e liturgia, assim como continuamente em seu pensamento e em sua vida. Símbolos religiosos expressam emoções e sentimentos humanos, além de ser poderosos em inspirar respostas e compromissos.
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