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CATÓLICOS NÃO CULTUAM IMAGENS ?




Há duas questões primordiais concernentes às imagens sagradas: (1) concernente ao seu culto - devem ser cultuadas e reverenciadas? (2) Concernente ao seu uso - devem ser pelo menos feitas e colocadas nos templos e outros lugares sagrados? Discutimos agora a primeira questão e mais adiante nos ocuparemos da segunda.

Antes, a questão é: deve-se prestar algum culto religioso (seja chamado adoração ou veneração) às imagens de Deus e dos santos, fabricadas por mãos humanas? Entre nossos oponentes não existe concordância neste ponto, alguns sem rodeio exibindo adoração; no entanto, outros, para evitar o ódio, insistem só em veneração. Esta, porém, não passa de distinção fútil. Visto que o culto religioso é apenas um e não admite várias espécies, é igualmente o mesmo, não importa o título pelo qual é designado.

Segundo, a questão aqui não diz respeito ao modo de exibir culto às imagens, mas de que maneira as imagens devem ser adoradas. Isto é feito com o fim de se examinar as opiniões variantes e adversas dos próprios papistas que, como os construtores da antiga Babel, estão divididos em suas línguas e forçosamente lutam entre si - se devem ser adoradas propriamente e se (de modo que possam limitar a adoração entre si, como alguns afirmam), ou, em contrapartida, só analógica, impropriamente e com referência ao exemplo e protótipo (como pensam outros); se com o mesmo culto, como o que se oferece ao protótipo (como pensam não poucos), ou com um culto diferente e inferior (como outros). Antes, a questão diz respeito apenas à veracidade do culto e  se lhes deve prestar algum culto religioso. Isto os papistas sustentam constantemente; nós, porém, o negamos.

Não se pode colher a opinião dos papistas melhor do que do decreto expedido pelo Concílio de Trento. Pois, embora aqui, como em outras partes, falem hesitante e ambiguamente, querendo satisfazer quanto possível cada uma das partes discordantes, contudo desvendam suficientemente seu significado, quando apelam para o Segundo Concílio Niceno e aprovam tudo quanto foi nele sancionado concernente ao culto às imagens. As palavras estão na Sessão 25, onde aos bispos se ordena que “ensinem a invocação dos santos, honrem as relíquias e usem as imagens, e denunciem os que ensinam de outra forma, com pensamentos ímpios sobre aquilo que foi sancionado contra os opositores das imagens pelos decretos dos concílios, especialmente do Segundo Concílio Niceno” (Schroeder, pp. 215,216). Ora, todos sabem que este concílio (reunido no ano 787 e considerado por eles como sendo ecumênico) sancionou expressamente a adoração das imagens. Daí ele amaldiçoar os que, mesmo por um momento, duvidam que as imagens devem ser adoradas. “Cremos que as imagens dos anjos c dos santos gloriosos devem ser adoradas. Sc alguém, contudo, não tiver essa disposição, porém labuta e hesita quanto à adoração das imagens dignas de adoração, o santo e venerável sínodo o anatematiza" (Segundo Concílio de Nicéia, Actione 7, em Mansi, 13:743). Não obstante, visto que para alguns a palavra “adoração” poderia parecer um tanto forte e se dispusessem a dizer em termos mais suaves “que as imagens devem ser reverenciadas”, o sínodo age pesado contra os mesmos: “Todos os que professam venerar as imagens sagradas, porém recusam adoração, o santo pai Atanásio prova que são hipócritas”; e ele diz que “desonram os santos” (Actione 4, Mansi, 13:597). Portanto, visto que o Concílio de Trento aprova tudo quanto foi sancionado naquele sínodo, é evidente que sua opinião era a mesma.

Segundo, isto é confirmado por sua prática diária, o que faz evidente que eles se prostram diante das imagens, as osculam, queimam-lhes incenso, erigeni-lhes altares, oferecem-lhes orações, fazem-lhes votos, instituem-lhes festas sagradas e fazem uso de partes semelhantes de adoração e culto. E para que ninguém presuma que apenas o povo peca nessa prática, enquanto os principais doutores pensam diferentemente, não é difícil demonstrar que seus pontos de vista correspondem a esta prática. Daí Tomás de Aquino desejar que o culto de latriia seja rendido à cruz de Cristo, não menos que a Cristo mesmo. “Portanto, visto que Cristo deve ser adorado com a adoração de latria, segue- se que sua imagem deve ser adorada com a mesma adoração” (ST, 111, Q. 25, Art. 3*, p. 2155). Como de costume, Cajetano o segue, bem como Gabriel Biel - “Se há imagens de Cristo, elas devem ser adoradas com o mesmo gênero de adoração que é dada a Cristo, ou seja, a de latreia” (Canonis Misse Expositio 49 [org. H. Oberman e W. Courtenay, 1965], 2:264). A maioria dos doutores abraça esta opinião: Alexander [de Hales], Boaventura, Richard [de Middleton], Paludanus, Capreolus, Castro, Canisius, Turrianus e muitos outros, os quais, na conta de Vasquez, chegam a trinta (De Culiii Adorationis, Bk. 2, Disp. 8.3 [ 1594], p. 133). Aliás, ele contende com a maior energia que todas as coisas inanimadas podem ser adoradas com o culto de latria - sim, mesmo a palha c os raios solares, sob os quais o Diabo jaz oculto (ibid., Bk. 3, Disp. 1.2,3, pp. 183-189). Belarmino deseja que as imagens sejam adoradas não só em virtude do protótipo (ou da coisa significada), mas também em virtude de si mesmas, de modo que a veneração seja concluída na imagem (“De Reliquiis et Imaginibus Sanctorum”, 21 Opera [1857], 2:499-500). Pertinente aqui c o fato de que, num culto solene e público, a própria cruz é invocada no hino entoado em sua adoração na quarta-feira da páscoa; pois, enquanto descobre a cruz, o sacerdote diz: “Eis o madeiro da cruz”: o coral responde: “Vinde, adoremos”; dirige-se a ela a oração: “Salve, ó Cruz, nossa única esperança neste tempo de Paixão, aumenta a justiça dos piedosos e outorga perdão ao culpado”. E para que ninguém presuma que isto  dito metonimicamente do crucifixo, imediata e expressamente é feita distinção dela: “somente tu és digna de pagar o preço do mundo”. Assim consta em Pontificale Romanum'. “A cruz do legado apostólico estará à mão direita, porque a ela se deve latreia, e a espada do imperador à esquerda” (Ordo ad recipiendum Imperatorem”, Pon- tificale Romanum Clemente VIII [1700], p. 645).

Confesso que esta opinião não agrada a alguns dentre os papistas, os quais afirmam que não se deve prestar nenhum culto às imagens de Deus, mas que devem só ser estimadas pela história e pela memória das coisas passadas. Não que a imagem mesma deva ser adorada, mas somente o modelo anterior à imagem. Esta era a opinião de Gregório, o Grande, o qual louva Serenus, bispo de Marselha, por condenar o culto às imagens, porem o culpa por quebrá-las: “Louvamos-te plenamente por haveres proibido sua adoração, porém te culpamos por as haveres quebrado; uma coisa è adorar um quadro; outra é aprender pela história de um quadro o que se deve adorar” (Letter 13, “To Serenus”, [NPNF2, 13:53; PL 77.1128]). Com ele concordam [William] Durand, bispo de Mimatum {Rationale [1481], Bk. IV. Quart. Canonis, fo. 64), Gerson, Chanceler de Paris (“Declaratio defectum Virorum Ecclesiasticorum”, n. 67 em Opera Omnia [1987 reimpr.], 2:318), Holchot, Tostatus entre outros sobre Deutero- nômio 4 (“Preclarum... super Deuteronomium”, em Opera [ 1507-1531 ], pp. 11- 15). Tampouco merece dúvida que o mais devotado e perspicaz dentre os papistas se incline a esta opinião. Mas que não pode ser considerada como sendo a opinião legada pela igreja romana vê-se não somente com base em Belarmino e outros que energicamente a rejeitam como temerária e herética, sendo que Baronius (no ano 794) diz que era insano quem assim pensasse (Annales Ecclesiastici [1868], Annus 794, 13:255-279) e Sirmondus a denomina “heresia dos gauleses” (cf. Concilia Antiqua Galliae [1629/1970], 2:191,192); mas especialmente no Concílio de Trento, o qual expressamente sanciona o culto às imagens.


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