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Canonicidade e Autoridade

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A INVESTIGAÇÃO do cânon da Bíblia é uma tentativa de descobrir a verdadeira base de sua autoridade. As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento formam um cânon por causa do fato de que elas são normativas. Pelo termo normativa está implícito que a Bíblia em todas as suas partes é a voz de Deus que fala aos homens. Sua autoridade é inerente, e, como é, não menos do que um edito imperial: "Assim diz o SENHOR". Quando as Escrituras são julgadas como normativas, por causa dos decretos dos concílios eclesiásticos ou de leis ordenadas pelos governos humanos, elas podem ser consideradas como na medida em que a influência humana é capaz de chegar. Mas, em contraposição a tal ideia, as Escrituras têm direito de declarar a vontade de Deus para os concílios eclesiásticos e os governos humanos.
Semelhantemente, como a autoridade digna pressupõe a capacidade de executar decretos, a Palavra de Deus não somente proclama os Seus propósitos seguros, mas também demonstra a penalidade que deve acontecer quando e
onde os homens não forem submissos a ela.
Visto que as Escrituras são imbuídas da autoridade legítima e totalmente justificável de Deus e visto que elas foram escritas pelas mãos de homens e visto que o cânon foi, em alguma medida, determinado por homens, é pertinente inquirir a respeito da natureza da autoridade divina e como ela reside nesses oráculos. Visto que a dúvida tem sido levantada a respeito da inspiração plena das Escrituras, por causa da autoria humana compartilhada, assim, e de igual modo, a dúvida tem sido levantada a respeito da autoridade das Escrituras, porque a parte que o homem compartilha tem exercido influência na determinação de quais escritos deveriam entrar no cânon. Foi demonstrado, em conexão ao estudo da doutrina da inspiração, que Deus usou autores humanos no registro das Escrituras e de tal modo que livrou aqueles escritos de imperfeições que as limitações humanas poderiam impor.
Agora, resta mostrar a verdade de que Deus, embora tenha usado homens na formação do cânon, os usou de tal modo que somente aqueles escritos foram escolhidos para compor os oráculos divinamente estabelecidos com suas perfeições de unidade, equilíbrio e inteireza de suas partes.
Os problemas relacionados à formação do cânon são muito simplificados por determinado fato, a saber, que a Bíblia está presente para evidenciar a sua perfeição divina. Assim, o problema se torna unicamente em se remontar ao ponto de partida proporcionado pelas Escrituras infalíveis. Não há necessidade de se teorizar sobre se é possível reunir uma coleção de escritos - de muitos autores humanos cujas vidas foram vividas em países diferentes e espalhadas através de muitos séculos — um só livro, livro esse que seja digno de Deus. Tal fenómeno estupendo é alcançado e sua realidade não pode ser desconsiderada. Uma devida atenção dada aos fatos envolvidos revelará a verdade de que o método empregado na formação do cânon da Bíblia é tanto natural quanto sobrenatural. Nesse empreendimento há uma exibição da coordenação da determinação divina com a cooperação humana.
Contudo, o elemento da determinação divina é supremo na formação do cânon como o é na autoria dual. A razão obriga a conclusão de que, como Deus produziu a realização de certos escritos incomparáveis, Ele, fielmente, não somente prevalecerá no ajuntamento desses escritos em uma só obra, sem erro nessa seleção, mas também determinará a ordem final deles nesse relacionamento até o fim, para que a sua continuidade singular possa ser mostrada.
Condições determinantes e de 'longo alcance existiam no tempo em que a Bíblia foi escrita e seu cânon foi formado, que não existem agora. Um reconhecimento pleno dessas condições deve ser sancionado para que uma avaliação verdadeira do problema da canonicidade seja consumada. As Escrituras de ambos os testamentos foram escritas quando havia muitíssimo pouco esforço literário em produção. Aquela época não era como agora, quando os indivíduos escrevem cartas livremente, quando um exército pródigo de pessoas aspira a autoria de uma espécie ou outra, e quando a produção de literatura religiosa tem alcançado proporções inacreditáveis. Naquela época havia pouca competição e comparativamente pouca necessidade de eliminação. Do pequeno grupo que poderia escrever, somente aqueles que foram movidos por Deus teriam experimentado a motivação impulsionadora que a inspiração
comunica.
No caso do Antigo Testamento, os escritos foram produzidos, na sua parte principal, por homens que estavam em posição de autoridade nas coisas religiosas e, em algum grau, da vida civil do povo. Moisés era reconhecido como o representante e o legislador de Jeová. Seus escritos, iguais aos dos profetas que possuíam crédito, não eram nada além do que a apresentação em forma escrita do que havia sido proclamado oralmente e possuía autoridade inquestionável. Na verdade, poucos resistiram à mensagem dos mensageiros
reconhecidos de Jeová.
No caso do Novo Testamento, os escritos foram feitos, em sua maior parte, por homens a quem Cristo havia escolhido. O apóstolo Paulo não foi exceção nesta qualificação, visto que o Senhor lhe apareceu e o chamou quando se encontrava no caminho de Damasco. È verdade que estes homens não exerceram influência no mundo ao redor deles e que o mundo nada teve a ver com a formação do cânon do Novo Testamento. As Escrituras do Novo Testamento foram endereçadas a um pequeno grupo de crentes desprezados (cf. 1 Co 1.26-29); todavia, a resposta espiritual a esses escritos da parte daqueles que constituíam o "pequenino rebanho" tinha tudo a ver com a determinação daquilo que eventualmente entraria na forma final do cânon do Novo Testamento. A comunicação era restrita, e por muitos anos os escritos que eram correntes e eficazes numa localidade não alcançaram todas
as localidades.
É provável que nenhuma igreja tenha possuído uma cópia completa de tudo que veio compor o cânon do Novo Testamento até o começo do segundo século. Todas as cópias de porções da Escritura eram manuscritas e poucos, de fato, poderiam possuir esses tesouros. A porção possuída por uma igreja local era preservada com o maior cuidado e sua leitura era uma grande parte da comunhão dos crentes quando eles se ajuntavam. Eles não poderiam ter estado preocupados com o cânon ou com o que deveria pertencer ao cânon. Eles sabiam que as suas necessidades espirituais haviam sido satisfeitas por causa da leitura desses escritos e, assim, as porções tornaram apreciadas em todo lugar, e essa é a base da formação do cânon. Sem desígnio e esforço, o cânon, dessa forma, veio a ser aprovado com base no mérito peculiar de cada porção.
Sem consciência da coisa significativa que faziam e à parte da luta e propósito de homens, a prova grande e final de que os escritos eram da inspiração do próprio Deus foi assim mostrada. A perfeição do plano e da inteireza do resultado é uma evidência indisputável do trabalho soberano de Deus, que operou através de agências humanas. Era natural que a Igreja latina fosse lenta em reconhecer o valor sobrenatural da carta anónima aos Hebreus, e que outros preconceitos existentes fossem indubitavelmente refietidos em várias localidades. No tempo devido e debaixo da orientação do Espírito de Deus, todas as dificuldades foram vencidas e o último livro - o Apocalipse •• foi acrescentado para completar o conjunto. Seria impossível determinar exatamente quando o Novo Testamento completo foi reconhecido como tal. Ao aceitarmos que a data de Apocalipse seja por volta de 96 d.C, pode ser observado que os escritos de Inácio, em 115 d.C, aparecem apenas vinte anos mais tarde. Destes e de outros dos antigos pais, está evidente que, à parte de um preconceito natural entre os crentes judeus em relação à antiga Bíblia, o Novo Testamento como está agora, já era tratado com distinção e obedecido como Escritura logo no começo do segundo século. Não existe algum registro com relação a que Igreja adquiriu primeiro uma Bíblia completa, ou a data precisa de tal ocorrência. Nào há modo de se saber tudo o que aconteceu no processo pelo qual qualquer igreja recebia uma nova parte da Escritura para ser acrescentada ao que já era aceito e amado. Sem dúvida, o fato de que uma nova porção era aceita sem questionamento de alguma outra assembleia, favorecia muito o processo. O modo no qual o cânon do Novo Testamento se formou foi totalmente natural, e, todavia, o resultado alcançado era totalmente sobrenatural.
Não há razão para se crer que houvesse algo que pudesse corresponder à consciência da formação da Bíblia entre os cristãos primitivos. Eles estavam muitíssimo gratos por qualquer mensagem de alguém que, por causa de sua associação a Cristo ou seus apóstolos, pudesse escrever ou falar com autoridade. E evidente que nem todas as mensagens assim recebidas, ainda que verdadeiras quanto aos fatos, eram designadas por Deus para serem uma parte da Bíblia. Esse elemento vivo que a inspiração comunica — e provavelmente sem sua identificação específica por alguém que lia aquelas páginas - concedia determinação santificadora irresistível (ao colocadas separadamente como infinitamente sacras e infalivelmente verdadeiras) àquelas porções particulares que eram divinamente designadas para constituir o cânon do Novo Testamento.
Nos dias do ministério de Cristo sobre a terra, o cânon do Antigo Testamento era aparentemente como é agora; mas, como no caso do Novo Testamento, nenhuma pessoa ou grupo de pessoas havia agido com autoridade na seleção dos livros do Antigo Testamento. O mesmo caráter divino inerente que a inspiração assegura havia tornado esses livros específicos a Palavra de Deus, em distinção a todos os outros escritos humanos. E inconcebível que este elemento inefável pertencente à inspiração não impressionasse tanto naquela época, como agora, todos os interessados em que a dissensão (se é que houve) fosse insignificante. Outros escritos, tais como eram, ficaram para trás, desprovidos desta qualidade divina específica. Contudo, o cânon do Antigo Testamento não havia sido encerrado porque não havia uma autoridade humana para fazê-lo. A Igreja primitiva havia recebido o Antigo Testamento com supremacia imposta. Isto está evidente da extensão e da maneira de sua citação no Novo Testamento. Novos livros foram adicionados como um acréscimo que se desenvolveu, e foram assim relacionados intimamente com as Escrituras do Antigo Testamento. Os apóstolos e os profetas que serviram como escritores do Novo Testamento foram em tudo qualificados e dignos para escrever debaixo da inspiração do Espírito Santo da mesma forma que os profetas do Antigo Testamento. Na verdade, a aptidão do autor humano, embora de valor na utilidade geral de seus escritos, não era a base final para a avaliação do Texto Sagrado. Isso é demonstrado pela inclusão de porções anónimas no cânon de
ambos os testamentos.
O fechamento formal do cânon do Novo Testamento está ao menos insinuado em Apocalipse 22.18. A dissimilandade na maneira em que os dois
testamentos terminam é significativa. Toda a expectativa não cumprida do Antigo Testamento é enunciada à medida que o Testamento se encerra e os últimos versos dão certeza da vinda de outro profeta. Mas nenhuma revelação continuada está por acontecer quando o Novo Testamento se fecha; ao contrário, o anúncio é feito de que o próprio Senhor logo retornará e a conclusão natural é a de que não haverá uma voz adicional que fale do céu antes que a trombeta anuncie a segunda vinda de Cristo.
Não menos importante é o fato que, visto que o cânon da Bíblia foi encerrado divinamente, nenhuma tentativa foi feita de acrescentar algo a ele.
Finalmente, ainda que realizada através da aquiescência e cooperação humana, Deus realizou na formação do cânon - como Ele fez na autoria dual do texto das Escrituras - um milagre. Sua própria Palavra inerrante não foi somente recebida e confinada em escritos incomparáveis, mas foi tão infalivelmente juntada em um volume e preservada de cair em confusão, do prejuízo e do fracasso do propósito divino que a subtração ou a adição ao cânon poderia impor. O cuidado determinante de Deus na formação do cânon das Escrituras está tanto em evidência e para a sua eterna glória quanto o seu cuidado na
transmissão exata de sua verdade através dos autores humanos.
Visto que qualquer porção da Bíblia é canónica por causa do fato de ela ser um documento normativo, por ser a Palavra de Deus escrita, ela é altamente recomendável para investigar mais cuidadosamente a fonte e a natureza exatas desta autoridade. O objetivo em fazer isso necessariamente não precisa ser de dissipar dúvida com respeito à constituição divina das Escrituras; pode bem ser o desejo de chegar a um conceito mais digno da importância transcendente delas. Sem levar em conta a infinidade de provas que a Bíblia é a Palavra escrita de Deus e, portanto, imbuída da mesma autoridade que o Criador exerce sobre a sua criação e que os céus exercem sobre a terra, a família humana não é toda submissa à supremacia e domínio da Bíblia. Os homens nào-regenerados, que "não têm Deus em todos os seus pensamentos", ignoram as Escrituras. Do mundo que agora agita-se sob a influência desmoralizadora dos ideais satânicos e das filosofias não pode se esperar que aprecie ou que recomende a Bíblia. Nem a desconsideração deles com relação a ela não é algo mais do que uma prova indireta do caráter celestial da Escritura.
A autoridade das Escrituras do Antigo e Novo Testamento que lhes dá a sua preeminência canónica é atribuível ao menos a sete fontes diferentes. Dessas, as primeiras três devem já ter sido consideradas em alguma medida, e, portanto, precisam apenas pouco mais que uma menção.

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