Como Cristo foi concebido do Espírito Santo e nascido da virgem?
O primeiro passo da humilhação e esvaziamento deve ser buscado em sua concepção e em sua natividade (que humilhação são duas partes de sua encarnação). Pois embora houvesse de Cristo na Provas não obscuras de sua glória em ambos, é certo que aqui concepção se descerra o grande mistério do esvaziamento de Cristo - o eterno e glorioso Filho de Deus quis deixar-se humilhar ao ponto de ocultar-se nos recessos de um ventre materno e assumir a carne frágil e mortal. II. A concepção ou syllêpsis (Lc 1.31), também chamada gênesis (Mt 1.18), é aquela pela qual Cristo foi invisivelmente formado no ventre da bendita virgem, sem a concorrência de homem, mas pelo único poder do Espírito Santo, que a envolveu com a sua sombra: “Aquele que nela é concebido é do Espírito Santo”, ou, “o que nela foi gerado” (Mt 1.20). Nisto se deve observar um duplo princípio: um ativo - o Espírito Santo; o outro passivo - a virgem.
O princípio ativo não foi um homem (como na geração ordinária ) porque a concepção tinha de ser tal que permitisse que a virgindade permanecesse pura e ’ inviolável. Também tinha de ser tal que Cristo ficasse isento de toda e qualquer mancha de pecado, o qual geralmente se propaga e se contrai por geração ordinária. Mas o Espírito Santo foi o único (Mt 1.18; Lc 1.35), não à exclusão das outras pessoas da Trindade, que por inteiro concorre para isto, como também para as demais obras do mesmo gênero; mas apropriadamente, porque a consumação e a fecundação das coisas geralmente são atribuídas ao Espírito Santo (como as da criação e do governo são atribuídas ao Pai; as da redenção e sabedoria, ao Filho). Isto foi feito a fim de que a geração de Cristo correspondesse à nossa regeneração e tivesse a mesma causa.
Ora, o Espírito age aqui não materialmente, mas apenas eficientemente; pelo poder (dêmiourgikõs), não pelo sêmen (spermatikõs)', pela energia (kat ’ exousia), não pela relação sexual (kata synousian)\ de modo que ele foi concebido pelo poder do Espírito, não da substância do Espírito; não por geração mas por bênção e consagração (como os antigos o expressam). Assim a preposição e marca a causa eficiente, como às vezes ocorre em outros lugares, quando lemos que “todas as coisas pertencem a Deus” (Rm 11.36) [ek aiitou] e lemos que os piedodos “nascem de Deus” (ek tou Theou, 1 Jo 3.9), não propriamente da causa material (como quando se atribui à virgem de quem é dito
E daí podermos responder prontamente à pergunta - o Espírito Santo pode corretamente ser chamado pai de Cristo, uma vez que lemos haver aquele concebido este? Porque, uma vez que o título pai requer geração da substância do gerador (e a geração de uma natureza semelhante à sua) e nem uma coisa nem outra ocorre aqui, é evidente que o Espírito Santo não pode ser chamado pai de Cristo. Além disso, Cristo é chamado “sem pai” (apatõr, Hb 7.3) com respeito à sua humanidade; e Deus é chamado Pai - seu único Pai, e isso peculiarmente (Jo 1.18; 5.17). Um pai não procede do filho, nem é enviado e dado pelo filho, como lemos que o Espírito procede de Cristo e foi enviado e dado por ele. Ora, uma coisa é formar por seu próprio poder algo de matéria assumida de alguma outra fonte; outra é gerar de sua própria substância. O Espírito Santo fez a primeira, porém não a segunda (que pertence a um pai).
Os hereges não conseguem melhor sucesso mantendo (com o fim de destruir a divindade de Cristo) que ele é apenas chamado Filho de Deus em virtude de sua extraordinária concepção pelo Espírito Santo.
(1) Como já se provou, ele era o Filho de Deus mesmo antes de sua concepção pelo Espírito Santo (Jo 1.1,2; SI 2.7; Pv 8.24), e por causa deste mesmo fato os crentes do Antigo Testamento eram realmente filhos e herdeiros.
(2) Ele é chamado Filho de Deus segundo a natureza divina, oposta à humana (Rm 1.3,4; 9.5; IPe 3.18).
(3) Assim como ele é chamado Filho do homem, uma vez que foi gerado de homem da raça de Adão, assim deve ser chamado Filho de Deus, não porque foi concebido pelo Espírito Santo com respeito à sua humanidade, mas porque foi gerado de Deus com respeito à sua divindade. Do contrário, a antítese perpétua e imediata que ocorre entre estes dois nomes não poderia prevalecer.
Tampouco isso pode ser provado com base em Lucas 1.35: “O Espírito Santo descerá sobre ti”, dio kai, “por isso também aquele ente santo que nascerá de ti será chamado o Filho de Deus”. As partículas dio e kai não são marcas de um consequente, como se ele fosse o Filho de Deus por ser gerado do Espírito Santo. Pois antes de ser concebido, lemos que ele já subsistia (Jo 1.2; Fp 2.6). Antes, são marcas de uma consequência com respeito à manifestação, porque sua filiação eterna foi declarada a posteriori. Aqui são pertinentes os seguintes argumentos:
(1) não se diz “ele será” (estai), mas “ele será chamado” (klêthêsetai) (i.e., manifestado e reconhecido como o Filho único de Deus [Jo 1.18], como em Jo 14, “Vimos sua glória, como do unigênito”).
Se os crentes são chamados filhos de Deus em virtude da graça da regeneração, não se segue que Cristo fosse distinguido pelo nome em virtude de sua concepção miraculosa. Existe uma razão para que os crentes, analogicamente (só em razão de uma participação de virtudes morais), sejam descritos como nascidos de Deus; outra é a razão quanto a Cristo, o unigênito de Deus, gerado de sua essência e igual a ele em todas as coisas.
Além do mais, a operação do Espírito Santo na virgem é expressa na Escritura por duas palavras - epeleusin e episkiasin. “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá” (epeleusetai epi se, kai dynamis hypistou episkiasei soi, Lc 1.35), termos pelos quais se designa essa maravilhosa e mui poderosa eficácia que opera o mistério. Por epeleusin se denota a presença do Espírito Santo e sua ação em geral; não a ação comum e ordinária exercida na concepção de todos (Jó 10.8; SI 139.15), mas aquela extraordinária e celestial (como o Espírito do Senhor vem em socorro dos que são designados para uma grande e extraordinária obra [Jz 14.6]; e o Espírito desceu sobre os apóstolos quando foi enviado do céu na fornia de línguas de fogo para santificá- los e prepará-los para a obra do evangelho [At 1.8]). Por episkiasin se indica peculiarmente o modo daquela operação, que foi: (1) poderosíssima para proteção e defesa (para que a virgem não fosse consumida pela majestade divina); (2) mui eficaz para a fecundação, para que ela concebesse em seu ventre sem qualquer participação de homem (como lemos de uma ave que cobre, aconchega e põe seus ovos e com seu calor os filhotes são incubados) - em alusão à criação, na qual lemos que o Espírito pairava sobre as águas, Gênesis 1.2; assim este feto (pode-se dizer) nascerá daquela virtude [poder] da qual o mundo teve seu princípio; (3) secreta e incompreensível, o que não pode ser rastreado pela razão nem expresso com palavras. Há uma referência a isto na sombra da nuvem que pairava sobre o tabernáculo (Ex 40.34*,35) e no querubim que cobria a arca (2Cr 5.8). Assim Deus quis produzir uma sombra, a marca de uma energia (energeias) secreta e incompreensível, para que não espreitássemos com muita curiosidade o modo deste mistério. Assim o anjo habilidosamente responde à virgem, a qual considerava a questão como impossível, porquanto nunca conhecera um homem. Isso não deveria parecer- lhe espantoso, visto que não se daria pela intervenção humana, mas pelo poder de Deus (para quem nada é impossível) e de uma maneira totalmente inusitada (que lhe era conveniente admirar, não sondar).
Ora, houve aqui duas operações principais do Espírito Santo: (1) a preparação do material; (2) a formação do corpo de Cristo do material preparado. Primeiro, ele prepararia por meio de uma santificação adequada o material separado da substância da virgem, não só vestindo-o com aquele poder e elevando-o àquela atividade que seria suficiente para a geração (sem o sêmen masculino), mas também purificando-o de toda mácula de pecado para que fosse sem mancha (akakos) e puro (amiantos), e assim Cristo pudesse nascer sem pecado. Por isso não houve necessidade de relação sexual na concepção imaculada de Maria. Pois, embora não haja nenhuma criatura possuída de todo e qualquer poder que possa gerar um ente puro de um impuro (Jó 14.4), contudo o poder de Deus não deve ser medido dessa forma (para quem nada é impossível e que chama à existência as coisas que não existem).
A segunda operação foi na formação do corpo de Cristo, à qual pertence sua organização, animação e a união de corpo e alma, respectivamente, com o Verbo. O apóstolo expressa isto pelo uso de katartismon: “um corpo me preparaste” [soma kafêrtisõ moi, Hb 10.5). Pois, pela encarnação, o corpo de Cristo foi formado de tal modo, e de tal modo preparado pelo Espírito Santo, que nele ele pudesse realizar um ministério servil, obedecer ao Pai e ser sacrificado.
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