Por meio de que fonte a autoridade divina das Escrituras se nos tomou conhecida? Ela depende do testemunho da igreja quer quanto a si mesma quer quanto a nós?
Quarto, a questão não é se a revelação divina é a razão formal (simples e absolutamente) de nossa fé, pois isso nossos oponentes reconhecem juntamente conosco. Antes, a questão é: qual é a primeira e mais clara revelação com respeito a nós que deve ser recebida mediante e em virtude de si mesma, e não em virtude de alguma outra superior que porventura conheçamos, e portanto o princípio mais comum e primário da fé pelo qual todas as coisas devam ser provadas, mas em si mesma por nada anterior a si, se essa revelação deve ser buscada nas Escrituras ou na igreja? Cremos que a revelação está contida na própria Bíblia, que é a verdade primeira e infalível, bem como a regra de fé. Mas os papistas declaram que ela deve ser buscada na voz c no testemunho da igreja. Stapleton afirma: “Agora, pois, a voz da igreja é o testemunho supremo e externo sobre a terra” (“Auctoritatis ecclesiasticae”, 1.8, em Opera [1620], 1:893); e “Deus falando pela igreja, fala não de outra maneira senão como se falasse imediatamente por meio de visões e sonhos, ou alguma outra maneira sobrenatural de revelação” (ibid., 1.9, p. 902); e “toda a razão formal de nossa fé é Deus revelando pela igreja” (ibid., 1.14.12, p. 926). Gretser afirma: “somente o testemunho da igreja é a resposta adequada à indagação: de que fonte você sabe que a Escritura é divinamente revelada?” (?“Tractatus de Quaestione, Unde seis scripturam cum generatim ...”, 7 +, em Opera Omnia [1734-41], 8:961-1003). Berlamino afirma: “É verdade que certamente não sabemos o que Deus tem revelado, exceto pelo testemunho da igreja” (VD 3.10, resposta ao argumento 13, p. 114); e “os católicos crêem no que crêem porque Deus o revelou, e crêem que Deus o revelou porque é o que ouvem a igreja falar e declarar” (“De gratia et libero arbitrio”, 6.3, em Opera [1858], 4:435-36).
A questão, pois, equivale a isto: por que, ou em virtude de que, cremos que a Bíblia é a palavra de Deus; ou, que argumento o Espírito Santo principalmente usa para convencer-nos da inspiração das Escrituras? O testemunho e a voz da igreja, ou as marcas impressas na própria Escritura? Nossos oponentes afirmam o primeiro item; nós, o último.
O objetivo dos papistas nessa e em outras controvérsias . formuladas por eles a respeito das Escrituras é óbvio, qual seja, evitar o tribunal da Escritura (no qual não encontram suficiente auxílio em defesa de seus erros) e apelar para a igreja (i.e., para o próprio papa), e assim tornar-se juízes em sua própria defesa. Daí, como já tratamos anteriormente sobre a doutrina da Escritura (que ela concorde, quer não consigo mesma), devemos agora inquirir, no que diz respeito às próprias Escrituras, se é próprio que as controvérsias religiosas sejam decididas por sua autoridade e testemunho. Para esse propósito tem-se mantido aguda discussão sobre sua origem e necessidade, sua perfeição e clareza, a integridade do cânon e especialmente sua autoridade; senão para destruí-la inteiramente, pelo menos para enfraquecê-la grandemente. E assim o que Irineu diz sobre os hereges de seus dias lhes é apropriado: “Quando se convencem das Escrituras, fazem rodeios para acusar a Escritura, como estando corrompida e destituída de qualquer autoridade” (Irineu, Against Heresies 3.2 [ANF 1:415; PG 7.846
Aqui, porém, devemos observar que alguns falam rudemente, outros mais serenamente sobre esse tema. Alguns (gymnê tê kephalê, sem pretender simulação) negam totalmente a autenticidade (authentian) da Escritura em si sem o testemunho da igreja, e creem que ela nao e mais digna de crédito (horroriza-me só a menção) do que o Alcorão, Tito Lívio ou as fábulas de Esopo. Em outros tempos, os que empreendiam disputas com nossos homens a respeito da autoridade da Escritura vomitavam essas blasfêmias. Tais são as palavras ímpias de Hosius contra Brentius (“Confutatio Prolegomenon Brentii”, em Opera [1583], 1:530). Ele assevera que se pode dizer num sentido piedoso que “as Escrituras não têm mais força que as fábulas de Esopo, se destituídas da autoridade da igreja”. Eck diz que “as Escrituras não são autênticas, exceto pela autoridade da igreja” (Enchirdion of Commonplaces 1 [trad. F.L. Battles, 1979], p. 13, “On the Church and her Authority”). Baile diz que, “sem a autoridade da igreja, não devemos crer mais em Mateus do que em Tito Lívio” (cf. André Rivet, Sommaire de toutes lês controverses touclumt la religion [ 1615], p. 217). Diz Andradius que: “Não há nada de divindade nos livros em que os sagrados mistérios estão escritos e que não se pode encontrar neles nada que nos obrigue à religião e a crer no que eles contêm; mas que o poder e a dignidade da igreja são tão imensos que ninguém, sem a mais profunda impiedade, pode resistir a ela” (Defensio tridentinae fidei catholicae 3 + [ 1580]). Stapleton diz: “A igreja deve ser considerada numa luz tal que não devemos crer no testemunho de qualquer outra forma senão como os apóstolos creram no testemunho de Cristo, e não se deve crer em Deus, exceto por causa da igreja” (adversus Whittak., lib. i, c. 7 + [1620]). Porém, visto que outros viam que isso era merecidamente censurado por nossos homens como ímpio e blasfemo, passaram a falar de forma mais cautelosa ao declarar sua opinião. Confessam que as Escrituras são absolutamente e em si autênticas e divinas, como vindas de Deus (a fonte de toda a verdade), porém dizem que (relativamente e quanto a nós) não têm essa autoridade exceto em virtude do testemunho da igreja, mediante cuja bondade elas se tornaram conhecidas e são recebidas por nós como divinas. Daí suscitou-se a distinção de autoridade (“quanto a si mesma” [absoluta] e “quanto a nós” [relativa]), o que Belarmino (“De conciliis Auctoritate”, 2.12, em Opera [ 1857], 2:61), Stapleton (“De Principiis fidei doctrinalibus controvérsia”, Cont. 5*. 1, em Opera [1620], 1:311 -121, e “Authoritatis ecclesiasticae”, 2.11, em Opera [ 1620], 1:1019-24), entre outros, têm desenvolvido. III. Porém, não importa a maneira como explicam sua opinião (se considerarmos apropriadamente a coisa em si), perceberemos que essa distinção foi formulada para enganar e remover o ódio associado à sua ímpia doutrina, mas que para desvendar a veracidade da coisa em si. Como a autoridade pertence ao gênero das coisas relacionadas ek tõn pros ti, não se deve considerar absolutamente, mas relativamente. Portanto, a Escritura não pode ser autêntica em si mesma sem que o seja em relação a nós. Pois os mesmos argumentos que provam que ela tem autoridade inerente devem induzir-nos a assentir em sua autenticidade quanto a nós; mas, se sua autoridade sobre nós é depositada na igreja como uma razão formal pela qual creio na Escritura como divina, sua autoridade sobre si mesma deve também estar depositada na igreja. Aliás, outros têm confessado isso mais claramente. Que essa é realmente sua opinião, pode-se satisfatoriamente deduzir das demais controvérsias nas quais eles se envolvem. Pois como poderiam negar sua perfeição, ou sua clareza, ou sua pureza, se cressem ser ela autêntica em si mesma?
Para expor o estado da questão, o problema não é ,se a Bíblia é autêntica e divina, pois isso nossos oponentes não negam, ou pelo menos desejam aparentar fé. Antes, a questão é: donde ela se nos faz conhecida como tal, ou porque argumento se nos pode provar essa inspiração? Os papistas depositam essa autoridade no testemunho da igreja e declaram que o principal motivo pelo qual somos induzidos a crer na autenticidade (authentian) das Escrituras é a voz da igreja. Mas, ainda que não neguemos que o testemunho da igreja tem seu peso (como mais adiante se verá), declaramos que, primária e principalmente, nós cremos que a Bíblia é divina em razão de si mesma (ou das marcas nela impressas), não em virtude da igreja.
Segundo, não se questiona o fundamento ou a causa eficiente da fé pela qual cremos na divindade das Escrituras (i.e., se o Espírito Santo a aplica ou não a nós), pois isto pertence a outra questão concernente ao livre-arbítrio, e nossos oponentes o reconhecem conosco (Stapleton, “Triplicatio inchoata adversus ... Whitakerum”, 9, em Opera [1620], 1:1166-71; Canus, “De Locis Theologicis”, 2.8, em Opera [1605], pp. 41-53). Antes, a questão diz respeito ao argumento ou motivo principal que o Espírito usa para nos persuadir de sua veracidade; se é um argumento direto do testemunho da igreja (como dizem os papistas) ou o racional, derivado das marcas da Escritura propriamente dita (o que sustentamos).
Como é possível admitir três causas para a manifestação de algo (objetiva, eficiente e instrumental ou orgânica), assim podem surgir três questões sobre a divindade da Bíblia: a primeira, concernente ao argumento em virtude do qual eu creio; a segunda, concernente ao princípio ou à causa eficiente daquilo a que eu sou levado a crer; a terceira, concernente ao meio e ao instrumento pelos quais eu creio. E a essas três questões podem-se dar respostas. Pois a Bíblia, com suas marcas, são o argumento em virtude do qual eu creio. O Espírito Santo é a causa eficiente e o princípio baseado no qual eu sou induzido a crer. Mas a igreja é o instrumento e o meio pelos quais eu creio. Consequentemente, se a pergunta é porquê ou em virtude do que eu creio que a Bíblia é divina, respondo que assim creio em virtude da própria Escritura, que, por suas marcas, comprova justamente isso. Caso se pergunte como ou com base no que eu creio, responderei: com base no Espírito Santo, que produz tal convicção em mim. Finalmente, caso me perguntem por qual meio ou instrumento eu creio nela, responderei: por meio da igreja, que Deus usa na proclamação das Escrituras a mim.
Terceiro, a questão não diz respeito ao motivo ou ao meio introdutório (eisagõgikõ) e ministerial (leitourgikõ), cuja assistência o Espírito Santo usa para persuadir-nos da autoridade das Escrituras. Isso prontamente concedemos à igreja. Antes, a questão diz respeito ao argumento e ao motivo principais pelos quais somos conduzidos à fé (não humana, mas divina), os quais eles depositam na igreja. Cremos que não se encontram fora da própria Escritura.
Quarto, a questão não é se a revelação divina é a razão formal (simples e absolutamente) de nossa fé, pois isso nossos oponentes reconhecem juntamente conosco. Antes, a questão é: qual é a primeira e mais clara revelação com respeito a nós que deve ser recebida mediante e em virtude de si mesma, e não em virtude de alguma outra superior que porventura conheçamos, e portanto o princípio mais comum e primário da fé pelo qual todas as coisas devam ser provadas, mas em si mesma por nada anterior a si, se essa revelação deve ser buscada nas Escrituras ou na igreja? Cremos que a revelação está contida na própria Bíblia, que é a verdade primeira e infalível, bem como a regra de fé. Mas os papistas declaram que ela deve ser buscada na voz c no testemunho da igreja. Stapleton afirma: “Agora, pois, a voz da igreja é o testemunho supremo e externo sobre a terra” (“Auctoritatis ecclesiasticae”, 1.8, em Opera [1620], 1:893); e “Deus falando pela igreja, fala não de outra maneira senão como se falasse imediatamente por meio de visões e sonhos, ou alguma outra maneira sobrenatural de revelação” (ibid., 1.9, p. 902); e “toda a razão formal de nossa fé é Deus revelando pela igreja” (ibid., 1.14.12, p. 926). Gretser afirma: “somente o testemunho da igreja é a resposta adequada à indagação: de que fonte você sabe que a Escritura é divinamente revelada?” (?“Tractatus de Quaestione, Unde seis scripturam cum generatim ...”, 7 +, em Opera Omnia [1734-41], 8:961-1003). Berlamino afirma: “É verdade que certamente não sabemos o que Deus tem revelado, exceto pelo testemunho da igreja” (VD 3.10, resposta ao argumento 13, p. 114); e “os católicos crêem no que crêem porque Deus o revelou, e crêem que Deus o revelou porque é o que ouvem a igreja falar e declarar” (“De gratia et libero arbitrio”, 6.3, em Opera [1858], 4:435-36).
A questão, pois, equivale a isto: por que, ou em virtude de que, cremos que a Bíblia é a palavra de Deus; ou, que argumento o Espírito Santo principalmente usa para convencer-nos da inspiração das Escrituras? O testemunho e a voz da igreja, ou as marcas impressas na própria Escritura? Nossos oponentes afirmam o primeiro item; nós, o último.
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