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A ideologia de um poder eclesiástico romano fundamentou-se em Roma capital do Império 




Quando, do ponto de vista abstrato, o poder se torna uma função social que envolve, consciente ou semiconsciente, sentimentos e vontades, juntamente com idéias e valores típicos de uma determinada classe social, então podemos falar de ideologia do poder.   Ou, noutras palavras, de como, surgindo (consciente ou inconscientemente) de desejos, sensações e vontades abstratas, se forma a idéia do poder: qualquer que seja o tipo do poder. 

Por exemplo, quando Jesus perguntava aos seus discípulos: "quem dizem os homens que eu sou?" poderia ser interpretada como a busca do conhecimento de seu próprio poder.   E quando Pedro disse: "tu és o filho de Deus", ele teve a representação clara do seu poder, quase um claro conhecimento de si dentro de uma função social.   Então lá pelo fim de sua vida Ele dirá: "todo poder foi-me dado no céu e na Terra: ide, pois..."   Entre a pergunta que fez aos discípulos e o exercício do seu poder (neste caso, poder espiritual) houve todo um complexo de situações (psíquicas, afetivas, volitivas, etc.) que constituíam a ideologia do seu poder espiritual: não que este poder tenha-lhe vindo dos outros; mas os outros foram apenas a ocasião, o espelho para Ele ter consciência e confirmação daquilo que interiormente Ele sentia e queria, isto é, a busca e o reconhecimento do seu poder espiritual.   J. Kenneth Galbraith escreveu o livro "Anatomia do Poder" (Livraria Pioneira Ed.; S.P.; trad. Port.; 1984) onde fala dos três meios pelos quais o poder se exerce: pela persuasão, apelando à ciência; pela compensação e pela punição.   Também fala sobre as fontes do poder: o poder origina-se na personalidade, na propriedade e na organização. E uma espécie de ideologia do poder considerada no seu aspecto prático (mais do que teórico) e social.   Por isso o livro constitui uma tese que poderia ser muito bem aplicada, por exemplo, em primeiro lugar a São Paulo apóstolo (São Pedro, neste caso, é mais um "inocente útil), e, depois, a alguns bispos de Roma antes do Concilio de Nicéia, em 324; e a todos os bispos de Roma, depois de Nicéia.   O apóstolo Paulo, como os bispos de Roma, a partir de Constantino e, sobretudo, de Teodósio, estava imbuído da ideologia do poder: um poder que exercia pela persuasão, pelas ameaças e pela promessa de recompensas - três momentos diferentes que brotavam da sua personalidade e da sua capacidade organizacional.   Também os bispos de Roma, depois do Concilio de Nicéia, fundamentaram sua autoridade, ou seja, seu poder eclesiástico, político e espiritual, no fato de serem os sucessores ininterruptos do apóstolo Pedro.   Com efeito, a ideologia do primado do bispo de Roma se fundamenta em primeiro lugar no evangelho de Mateus (16, 17-19) e, em segundo lugar, na tradição que aponta Roma como sendo a cidade onde Pedro esteve.       

O pilar que sustenta a ideologia do poder papal é a tradição. Chamamos de tradição uma transmissão oral de lendas, fatos, doutrinas, costumes, etc, durante um longo espaço de tempo. 
Tratando-se do poder eclesiástico do bispo de Roma, deveríamos encontrar esta doutrina nos escritos, que ainda restam, de outros bispos da época, de forma ininterrupta no tempo e no espaço.   Na realidade, encontramos nos primeiros três séculos apenas três bispos que em seus escritos fazem algumas referências à primazia da sé episcopal romana.   São eles: Irineu que morreu em Lyon, na França, em 208; Cipriano, que morreu em Cartago (África) em 258; e Eusébio que morreu em Cesaréia (Capadócia) em 340.   É um número extremamente exíguo para que se possa falar de uma tradição dos primeiros séculos! Tratam-se de três opiniões pessoais com breves acenos à sé episcopal de Roma cuja influência era nula, ou quase nos primeiros três séculos.   Todavia, é importante notar que esses três autores não falam de "Primado" e sim de "preeminência" da Igreja romana; "Igreja", não "bispo" de Roma.   Talvez a tradição possa ser encontrada em outros elementos. Mas antes de ver esses elementos, vejamos o que dizem estes três bispos.   Na realidade nos primeiros dois séculos temos bem pouca coisa; aliás, não temos nada para que se fale de uma tradição capaz de formar e fundamentar a ideologia do primado.   Certamente esta tradição deve fundamentar-se num outro elemento bem mais importante, isto é, Roma capital do império  que atraía, pelos seus encantos visitantes, comerciantes, chefes políticos, charlatães, mágicos, enfim: pessoas de todas as raças, de todas as religiões e de todas as filosofias...   Até São Paulo suspirava por Roma... e Pedro, que desde muito    tempo seguia os passos de Paulo, também quis ir a Roma: fiscalizar Paulo?   Como já Tiago e até o mesmo Pedro haviam feito várias vezes lá na Ásia menor, Paulo considerava-se chefe dos pagãos convertidos (conforme sua interpretação do pacto de Antioquia) e Pedro era o chefe dos judeus-cristãos.   Em Roma, terra de pagãos, de pagãos convertidos havia muitos  judeus e judeus-cristãos, o que explicaria a ida a Roma de Paulo e de Pedro: este, como visitante? Ou como bispo? Isto ainda não foi desvendado... Tudo não passa de suposição...     Certamente Roma merecia uma sé episcopal que fosse o centro das igrejas do império; é aqui que começa a lenda de Pedro como primeiro papa.   Lenda? Verdade? Isto não interessa. O que interessa é que a partir destas suposições os bispos de Roma constroem, ponto por ponto, a ideologia do poder eclesiástico.   E o primeiro será o bispo Clemente romano sugerindo que o cristianismo deve tornar-se uma força organizada como o exército romano, com um chefe supremo e demais subalternos.   


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