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A Primazia de  Pedro ?Pedro foi um pontífice ecumênico e o cabeça da igreja e o vigário de Cristo?




Aqui, porém, tratamos da primazia de autoridade e jurisdição - se houve em Pedro algum grau de autoridade e jurisdição acima dos demais apóstolos, motivo pelo qual foi constituído pontífice ecumênico, o vigário de Cristo e o cabeça da igreja, com o mais absoluto poder, de modo que os crentes individualmente, e os próprios apóstolos com os demais (como súditos), eram obrigados a submeter-lhe suas cabeças. Os romanistas pelejam em prol disso.  “Os católicos afirmam que o apóstolo Pedro era o cabeça e príncipe de toda a igreja, instituído pelo próprio Cristo em seu lugar; e constitui não um simples erro, mas uma heresia negar a primazia de Pedro instituída por Cristo” (“De Romano Pontífice”, 1.10 Opera [ 1856], 1:330).
 As razões são várias:
(1) a primeira é extraída da natureza do ofício apostólico, que, sendo o supremo na ordem eclesiástica, não reconhece nenhum superior e maior. Assim os apóstolos, individualmente, tinham o supremo, mais extenso e imediato poder e jurisdição, pelo qual eram capazes de promulgar leis a toda a igreja, de modo que não havia nenhuma apelação fora deles. Receberam tal poder imediatamente de Cristo, o qual contém todos os demais poderes eclesiásticos. E, consequentemente, não reconheciam na terra superior por quem pudessem ser instituídos, pois, acima do supremo, não se admite nenhum maior, e os que são supremos necessariamente devem ser iguais. O clero  não nega que o poder supremo foi dado não só a Pedro, mas também aos demais apóstolos, e que receberam sua missão e jurisdição imediatamente de Cristo e, com respeito ao governo, eram cabeças, líderes e pastores da igreja universal (“De Romano Pontífice”, 1.9 Opera [1856], 1:323-30). Por isso os escritos de cada um deles é canônico e sua doutrina, infalível, sem qualquer confirmação de Pedro (ibid., 1.11, pp. 334-35).
  Entretanto, eles replicam: “Pedro tinha o pontificado, como um pastor ordinário, no qual ele tinha de ser sucedido, os demais eram como que delegados, que não tinham sucessão”. No entanto, toma por certa a própria coisa a ser provada - que Pedro foi chamado e enviado de uma maneira distinta dos demais, e era um pastor ordinário que podia ser sucedido, enquanto que os demais eram extraordinários, especialmente visto que o clero  diz que o que foi prometido, “dar-te-ei as chaves”, e explicado, “apascenta minhas ovelhas”, foi dado também aos apóstolos. Além disso, visto que afirmam que o pontificado foi expressamente posto por Paulo na palavra “apóstolos” (Ef 4.11), que é comum a todos, como é possível que este ofício seja atribuído somente a Pedro e não aos demais? Além disso, se Pedro tivesse algum sucessor, então o tinha como apóstolo ou como mestre. Se como apóstolo, então ele sucede os apóstolos como tais; se como mestre, então por que ele não sucedeu também aos demais, que eram igualmente mestres? Também não se pode dizer que Pedro detinha o principado, porque tal principado é um poder distinto do apostólico ou o próprio poder apostólico. Se é o mesmo, por isso os apóstolos devem ser igualmente sucedidos; se é diferente, então é preciso admitir um poder maior que o apostólico, o qual nossos oponentes afirmam ser o supremo. Finalmente, visto que o apostolado como tal era um ofício extraordinário e temporário (que cessaria na igreja), então não deve ter sucessores.
(2) Se Pedro foi constituído pontífice ecumênico, então era maior e superior na igualdade ,não lemos sobre nenhuma superioridade ‘ ’ desse gênero sendo outorgada por Cristo a Pedro, acima dos demais, ou usurpada pelo próprio Pedro, ou reconhecida pelos apóstolos. Cristo os envia igualmente: “Como o Pai me enviou, assim eu vos envio” (Jo 20.21). Igualmente lhes sopra o Espírito (v. 22) e lhes dá o poder de perdoar e de reter pecados: “Se de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; se lhos retiverdes, são retidos” (v. 23). Igualmente dá a todos a ordem de pregar e batizar: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Por isso ele lhes promete igualdade de tronos: “Quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19.28). Ora, se Pedro se destinasse a ser príncipe sobre os demais, por que seu trono não é distinto e elevado acima dos demais? Por que Cristo jamais pronunciou sequer uma palavra sobre tal monarquia e preeminência? Pois se provará no que segue que os argumentos apresentados pelos romanistas para provar isso são destituídos de valor e não passam de meras invenções. Após a ascensão de Cristo, a mesma igualdade transparece da prática apostólica, (a) Se Matias é eleito no lugar de Judas, isso não é feito pela vontade de Pedro (como consistente com uma monarquia), mas por sortes, mediante o consenso de toda a assembleia. E, se Pedro fala, faz isso por nada mais senão para exortar a assembleia a efetuar tal eleição (que era o efeito de seu zelo ou da posição que mantinha entre eles em virtude da prioridade de sua vocação), (b) O Espírito Santo desce sobre todos igualmente, sem qualquer prerrogativa de algum deles, (c) Quando se discute a criação do diaconato (At 6), lemos que os doze apóstolos convocaram a multidão para tal propósito e que os eleitos foram apresentados aos apóstolos para que impusessem suas mãos sobre os mesmos (o que prova que nenhum deles era então o cabeça da igreja; do contrário, ele teria cumprido este oficio acima dos demais). Daí dizer Crisóstomo: “Vejam que ele faz todas essas coisas em comum com os demais” (ouden authentikõs ouden archikõs, “Homily 3”, Acts of the Apostles [NPNF1, 11:18; PG 60.34]). (d) Pedro é enviado pelos demais apóstolos aos samaritanos (At 8.14). Portanto, ele não podia ter sido um pontífice ecumênico, porque isso contraria o fato de um ser delegado por outros. Aliás, disso se deduz claramente que a autoridade pertencia a toda a corporação, não a alguma pessoa em especial - ou a Pedro em particular, que se sujeita a todo o colégio. O papa prontamente se permitiria ser enviado a outros lugares a pregar o evangelho pelos cardeais ou bispos? Também não se pode dizer, como Perronius, que essa missão foi realizada sob o pedido dos apóstolos, porém não por sua autoridade. Não nos deparamos com nada desse gênero no texto, mas apenas que foi realizada por um conselho comum e concordante, da mesma forma que, em outra parte, lemos que Barnabé foi enviado At 11.22) e Silas e Judas são enviados com Paulo e Barnabé (15.22). Ora, ainda que um igual seja enviado por um igual, não segue que um superior seja enviado por um inferior (que é de autoridade), ou que aquele que é enviado possa exercer autoridade sobre aqueles por quem é enviado.
(3)Com  Base no Concílio de Jerusalém (At 15), daí sendo em Atos 15 extraídos vários argumentos contra a primazia de Pedro, (a) " Paulo e Barnabé são enviados aos apóstolos em geral, não a Pedro (v. 2), o que de modo algum poderiam ter feito se ele fosse reconhecido como o cabeça e o chefe dos demais, (b) Receberam uma autorização dos apóstolos e anciãos (vs. 23-25), mediante cartas sinodais que foram escritas no nome de todos os apóstolos, e não apenas no de Pedro: “os apóstolos e anciãos” (v. 23); “nos pareceu bem” (v. 25). (c) A autoridade de Tiago, aqui, parece ser não menor que a de Pedro, porque tempera a sentença de Pedro e então conclui que toda a assembleia aprovou sua sentença e as cartas que foram escritas. Se Pedro falou depois da discussão com o fim de apresentar sua sentença, nem por isso segue que ele tenha dado uma sentença definitiva ou que seu decreto tenha vencido. Tiago falou por último e propôs uma sentença que foi adotada. Por isso, caso se deva atribuir o decreto a algum dos apóstolos, então ele pertence mais a Tiago do que a Pedro, porque, depois do discurso de Pedro, ele discorreu sobre o assunto, o que não seria necessário se o decreto tivesse sido sancionado. Também não foi o decreto expresso nas palavras de Pedro, mas na sentença de Tiago. Aqui se enquadra o modo como Tiago fala: “Pelo que, julgo eu...” (dioegõ kririõ mê parenochlein, v. 19). Esta não é apenas a maneira de alguém aconselhar, mas de decretar e decidir. Por isso Crisóstomo infere que a preeminência foi designada a Tiago: “Pois ele foi designado o líder” (ekeinos gar ên (ên archên enchecheirismenos) e, logo adiante, o que é “minha sentença senão eu dizer com autoridade que isto é assim” (and ton met’ exousias legõ touto einai, “Homily 33”, Acts of the Apostles [NPNF1, 11.207 e 208; PG 60.240 e 241). E Hesychius (segundo Photius): “Pedro prega, porém Tiago decide (Petros dêmêgorei, allá lakõbos nomothetei). Como pregarei que um servo de Cristo e um irmão da Nova Jerusalém é o supremo líder, príncipe de sacerdotes, cabeça dos apóstolos, elevado acima dos cabeças, brilhando mais fulgurantemente acima das pedras e o mais eminente entre as estrelas?” (“Sur Jacques, le frere du Seigneur”, em Photius, Biblio- theque 275.51 lb.9 [1977], 8:117). O que de mais eminente acerca de Pedro ocorre em toda a antiguidade? Em vão Lorinus “contende que estas coisas não interferem na primazia de Pedro, mas apenas indicam que a prerrogativa do episcopado de Jerusalém fora outorgada a Tiago” (“In Iacobi Epistolam Catholicam Praefatio”, 3 In Catholicas BB. Iacobi et Ivdae Apostolorum [1622], p. 3). Pois se Tiago, segundo a opinião de Hesychius, era o cabeça dos apóstolos e presidiu o Concílio de Jerusalém (estando Pedro presente), de modo que foi o legislador e juiz no Concílio, enquanto que Pedro era o orador, como poderiam reconhecer a primazia de Pedro? O papa de nossos dias permitiria que um  bispo de sua diocese fosse distinguido com tais honras ou que fosse dada autoridade a qualquer bispo caso se convocasse um concílio (o próprio papa estando presente)? Tostatus não difere destes quando diz: “Todos os apóstolos, enquanto moravam na Judéia, de certa maneira estavam sujeitos a Tiago, o bispo de Jerusalém; e ele se mostrou maior que eles, bem como Pedro, e, neste Concílio, aquele que os apóstolos e toda a igreja convocaram, foi definitivamente pronunciado não por Pedro, mas por ele, como o órgão de toda a igreja” (Commentaria in Quartam Partem Matthaei, Q. 13 [1615], p. 340, sobre Mt 17).
(4) Com base numa comparação entre Pedro e Paulo. Paulo testifica que em nenhum aspecto era ,inferior aos demais apóstolos mais eminentes (tots hyper lum Aposero e autolois, 2Co 11.5; 12.11). Deve-se observar que aqui se determina não apenas um chefe, mas muitos, e que Paulo se equipara aos mais eminentes. Assim Paulo fecha a boca de seus detratores que se defendiam contra ele fazendo uso da autoridade de Pedro, Tiago e João, notificando que não deviam levar em tanta conta suas pessoas a ponto de ele ser desprezado, visto que em nada era inferior a eles. Porventura um bispo hoje falaria nestes termos de um papa? Aqui também se encaixa o que ele diz: “E, quanto àqueles que pareciam ser de maior influência (quais tenham sido, outrora, não me interessa; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que me pareciam ser alguma coisa, nada me acrescentaram” (G1 2.6). Portanto, se nada acrescentavam a Paulo, nem quanto ao conhecimento nem quanto à autoridade, então ele [não] deve ser considerado inferior a eles, mas igual em todas as coisas. Isso é confirmado ainda mais por “a destra de comunhão que lhe estenderam”. “Pois Tiago, Cefas e João, que pareciam ser as colunas [hoi dokountes styloi einai], estenderam a mim e a Barnabé a destra de comunhão” (G1 2.9), não de iniciação, mas de testificação  e confirmação de que eram associados no oficio apostólico e na pureza da doutrina. O significado é: longe de estes judeus me acrescentarem alguma coisa quanto a autoridade ou conhecimento, os mais eminentes na igreja (Tiago, João e Pedro) me reconheceram não como desigual, mas como colega, e assim me estenderam a destra de comunhão (Jr 50.15; Ez 17.18). Se, pois, Paulo era um associado e colega dos outros, que espaço resta para a primazia de Pedro? Tampouco se pode dizer aqui “que eram deveras associados no ofício da pregação, mas isso não impede que Pedro seja sempre superior no ofício de governar”. Isso é uma manifesta impossibilidade da questão, contrária ao escopo de Paulo, que defende não apenas a veracidade da doutrina, mas também a dignidade e autoridade do apostolado pela paridade de seu direito ao mesmo. E esta união (koinõnia) não só indica comunhão, mas implica participação da mesma coisa para que Paulo, entre os gentios, e Pedro, entre os judeus, pudessem executar suas funções apostólicas; portanto, como Pedro estava administrando aos judeus, assim também Paulo devia administrar aos gentios. Daí ele dizer: “O evangelho da circuncisão foi confiado a Pedro” (G1 2.7). Ora, essa distribuição de províncias   não podia ter sido feita se Pedro fosse o primaz, como entre o papa e os bispos tal coisa não é permitida em nossos dias. E, embora não neguemos que assim fosse feito para que um não se abstivesse do apostolado do outro, contudo, foi assim feito para que a autoridade de Paulo, em seu apostolado, não fosse menor que a de Pedro no seu. A isso deve referir-se também o fato de que Paulo professa que não teve sua vocação da parte dos homens (G1 1.1), como a fonte, nem por meio dos homens (i.e., com seu auxílio) e mediatamente por meio deles, mas imediatamente, por intermédio de Cristo em Deus. Pois se desde a ascensão de Cristo Pedro fosse o cabeça visível na igreja, ninguém sem sua intervenção poderia ter sido admitido na igreja como um ministro. E Paulo diz isso depois de sua conversão: “não consultei came e sangue” (G1 1.16), nem regressou a Jerusalém, aos apóstolos, para receber deles a autoridade de ministro ou a conferenciar com eles acerca de sua vocação (o que de todas as formas teria sido obrigado a fazer, se Pedro fosse o cabeça visível na igreja, de quem todos eram dependentes).

(5)Com base na repreensão de Paulo a Pedro. Pois na repreensão um Pontífice ecumênico é hanypeuthynos (“não sujeito critica  humana”), obrigado a julgar a todos, sem ser julgado e repreendido por ninguém. Pedro, porém (como já lemos), foi julgado e repreendido por Paulo: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tomara repreensível” (G1 2.11). Isso não indica apenas uma exortação (enktêma), mas também uma reprovação (epiplêzin) e uma repreensão um tanto severa (epitimêsin sphodroterari). Essa passagem aborrece profundamente nossos oponentes. Baronius a chama uma pedra de tropeço, uma rocha de ofensa, uma história difícil de entender. Justamente por isso ele emprega todo esforço para remover essa pedra de tropeço, porém em vão. Não se pode dizer (segundo Crisóstomo e Jerônimo) que isso aconteceu insinceramente e devido a um desacordo entre Pedro e Paulo. Pois Agostinho observa com propriedade que tal insinceridade (que seria uma falsidade real) é indigna da santidade das Escrituras, e especialmente à luz do protesto de Paulo (em G1 1.20), de que “eis que diante de Deus testifico que não minto” (Letter 28, “To Jerome” [FC 12:95-96]). O que lemos, que ele “resistiu-lhe face a face” (kata prosõpon), não pode ser entendido como fingido e insincero, porque em nenhuma parte do Novo Testamento a frase é entendida nesse sentido. Antes, implica o que é feito na presença e diante de todos (como em Lc 2.31; At 3.13; 25.16). Paulo explica “face a face” (to kata prosõpon) por “diante de todos” (emprothenpantõn, G12.14), porque o pecado era público, conhecido e prejudicial a todos. Por isso Tomás de Aquino a traduz como “manifestamente” (cf. Commentary on Saint Paul’s Epistle to the Galatians [1966], p. 46), e, Emanuel Sá, “abertamente”. Ora, ainda que Pedro não ignorasse que a igreja ficou isenta do jugo da lei mosaica e tenha dado sua sentença acerca dela no Concílio de Jerusalém, não segue que ele não pudesse pecar na prática. Ele podia pensar corretamente e agir erroneamente. Nem Paulo repreendeu a Pedro porque este ensinava falsamente, mas porque ele não andou estritamente segundo a verdade que conhecia (a saber, porque, visto que, antes da vinda dos judeus, ele vivia livremente com os gentios em conformidade com a liberdade cristã, depois de sua chegada, tomado de timidez, afastou-se deles e arrastou os outros após si à mesma hipocrisia). Não negamos que Paulo ainda observava certas legalidades, mas ele não repreendeu a Pedro por isso. Antes, ele o repreendeu porque comia livremente com os gentios durante a ausência dos judeus; mas, quando estes se fizeram presentes, ele se afastou daqueles (o que Paulo nunca fez). Portanto, uma coisa é Paulo viver no meio dos judeus para acomodar-se às cerimônias dos judeus (o que ainda não era lícito considerar como mortífero, mas pouco a pouco cedem como indiferente [adiaphorous]), outra coisa, todavia, é alguém que vive no meio dos gentios e usa a liberdade cristã, de repente, movido de medo dos judeus, afasta-se de suas mesas como algo ilícito 
 Nem Perronius se sai melhor dizendo que foi “uma repreensão de amor, não de autoridade”, porque, embora fosse uma repreensão de amor e não da autoridade de um superior a um inferior, contudo foi uma repreensão de justa severidade que não poderia ter sido admitida sem que houvesse igualdade entre Pedro e Paulo. Pois se Pedro era o cabeça e líder-chefe da igreja, como poderia Paulo (sem violação da obediência que lhe era devida) tê-lo repreendido tão livremente diante de todos? Nem se poderia dizer, que um superior pode ser repreendido por um inferior, contanto que seja feito com cautela e reverência, e com o devido respeito a um superior. Paulo nega que fosse inferior a Pedro e não há indicação de tal reverência (se por esta se quer dizer uma manifestação de sujeição), porque não é dito simplesmente que Paulo o repreendeu, mas que ele “o resistiu face a face”. Porém se aqui estão implícitos modéstia e amor fraternal, admite-se que tal coisa foi empregada por Paulo, mas que é de um igual diante de um igual, aliás, inclusive de um maior diante de um menor. Então a questão não é se Pedro era maior, mas se ele era um pontífice ecumênico. Pois se os romanistas admitem que um maior pode ser repreendido por um menor, contudo negam, em seus cânones, que um pontífice ecumênico possa ser repreendido por um menor, mesmo se ele lançar pessoas em multidões no inferno (Graciano, “Decreti”, Pt. 1, Dist. 40.6.3 Corpus luris Canonici [1959], 1:146). O papa admitiria que alguém o resistisse face a face, diante de todos, e o acusasse de hipocrisia, de não andar corretamente, e isso sem qualquer prefácio de honra? Ou, se Pedro se tivesse permitido ser assim repreendido por humildade, ainda que fosse o maior, teria sido lícito deixar-se atacar por Paulo? Não argumentamos com base na falha ou indulgência de Pedro, mas com base no ato de Paulo e sua autoridade em culpar Pedro, a qual ele assumiu para si. Pois necessariamente ele teria feito isso ou por direito ou contra o dever. Isso ninguém ousaria afirmar; portanto, isso é certo. Entretanto, se Paulo podia repreender corretamente a Pedro, e, no entanto, ninguém pode repreender um pontífice ecumênico, segue-se que Pedro não o era, como nossos oponentes sustentam que era.
 (6 )Com base  na declaração de Pedro, o qual nunca  reivindica para si essa primazia, mas se põe no mesmo  nível que os demais e proíbe toda e qualquer dominação na igreja 1 Pedro 5 :1. “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, ’ " presbítero (ho sympresbyteros) como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (IPe 5.1-3*). E, no entanto, se ele tivesse obtido de Cristo a primazia, como ele não se lembrou dela, para que adicionasse maior peso às suas exortações? Por que ele se põe na mesma ordem com os demais? Por que proibiria tão ansiosamente o senhorio como algo indigno dos pastores de Cristo, se tivesse recebido de Cristo esse ofício? Longe de nós dizermos que Pedro fez com tanto zelo o que proíbe em outros. Além disso, Pedro não exerce nenhum ato de um pontífice ecumênico, seja ordenando aos apóstolos, ou os enviando, ou promulgando leis, ou julgando controvérsias, ou reservando para si certos casos, ou usurpando ambas as espadas, ou proclamando concílios, ou arrogando para si o poder de transferir reinos e fazer com que o direito não seja direito, e fazendo muitas outras coisas semelhantes, o que o pontífice romano de nossos dias reivindica para si. Que os ditames de Gregório sejam comparados com toda a vida e prática de Pedro, e, certamente, se manifestará como em todos os aspectos (dis dia pasõri) diferem entre si.
 (7)Com base no silêncio  das Escrituras. Se tal primazia tivesse sido instituída por Cristo (em quem estava o Escrituras principal fundamento da igreja), não deveria Cristo, em algum lugar (ou os apóstolos), ter deixado menção expressa dela para que os crentes, sendo admoestados, lhe prestassem a devida obediência, especialmente naqueles lugares que pareciam necessariamente requerida , onde se trata de ofícios eclesiásticos ou da autoridade concedida por Cristo aos pastores (como em Lc 22.24-30; Mt 28.18-20; Ef 4.11; ICo 12)? Visto, porém, que nada desse gênero ocorre (aliás, as Escrituras sempre falam dos apóstolos como iguais no tocante ao ofício da pregação e governo, e no tocante à autoridade), fica evidente que tal primazia não passa de invenção e que era desconhecida a Cristo. Esse argumento é confirmado com base na dispensação de Cristo depois de sua ascensão, em relação às sete igrejas da Asia, designadas pelos sete castiçais de ouro, às quais o apóstolo João escreve cartas para exortar, corrigir e consolar. Pois se a igreja romana foi feita por Cristo senhora das igrejas e seu pontífice visível foi feito cabeça e vigário de Cristo, por que Cristo não lhe escreveu nenhuma epístola como o centro em tomo do qual as demais deveriam estar unidas? Porém ele dirige suas palavras às outras e lhes fala no plural, não no singular (o que ele teria feito se todas devessem estar em sujeição a uma só). Por que ele não emprega antes esse seu vigário para escrever àquelas igrejas (a quem todas devem sujeição segundo seu mandamento), e não João, que não detinha nenhum ofício desse gênero? Isso evidencia claramente que tal primazia não foi instituída por Cristo.

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