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Os corpos dos santos e as relíquias devem ser adorados com culto religioso ?





O culto às relíquias é o apêndice do culto aos santos. Acredita-se que não pouco cabe à honra dos santos que os seus corpos (ou pelo menos os seus ossos, cinzas, cintos, roupas e relíquias afins) sejam religiosamente adorados. Embora de fato os sofistas da atualidade (envidando esforços para cobrir e ocultar a torpeza desse culto às relíquias [leipsanothrêskeias]) neguem que a adoração devida a Deus lhes é prestada, mas somente veneração e honra; contudo é indubitável que ele foi sancionado pela autoridade do Segundo Concílio de Nicéia nestes termos: “Adoramos ossos, cinzas, roupas, sangue e sepulcros, contudo não sacrificamos a eles” (Actione 4, Mansi, 13:47). Baronius diz que foi enviado por Clemente VIII “procurar c cultuar o venerado corpo de Cecília” (Annales Ecclesi- astici [1868], Annus 821,14, 14:15). Vasquez prova que “imagens e relíquias devem ser adoradas da mesma maneira” (De Cu/tu Adorationis, Bk. 3, Disp. 4.1,2 [1594], pp. 216-218). O Catecismo de Trento aprova um juramento pelas relíquias, o que ninguém pode negar ser um ato de religião (Catechism ofthe Coiincil ofTrent [trad. J. A. McI Iugh e C. J. Callan, 1923], p. 386). Mas, sob todo c qualquer nome (não importa se o culto é designado adoração ou veneração), o certo que para eles é religioso. II. Ora, ainda que pensemos que os corpos dos santos com suas relíquias não devam ser descartados e transformados cm motivo de zombaria, mas devem ser sepultados decentemente (não só porque são as relíquias dos homens que devem granjear sepultura honrosa por certo privilégio da natureza, mas também por causa dos crentes e santos cuja memória deve ser louvável na  igreja); contudo negamos que devam receber culto religioso. Merecidamente nos desvencilhamos da superstição pela qual (por intermédio de simples fraude para fazer zombaria do povo) as relíquias dos apóstolos são exibidas, enquanto seus escritos são mantidos ocultos. As relíquias são mudas e não há risco de que murmurem algo contra o papa, mas os escritos apostólicos estrangulam o papado e subvertem a idolatria.
 Em parte alguma a Escritura  sancionou tal culto, seja por mandamento, ou promessa, ou às relíquias em si como  exemplo. (1) Lemos que os corpos dos santos  foram entregues à terra sem qualquer ostentação ou veneração religiosa. E assim, quando Jacó e José estavam para morrer, eles ordenaram que seus corpos fossem levados do Egito para Canaã a fim de que descansassem com seus pais; mas em parte alguma lemos que foram adorados ou osculados, nem que foram depositados num tabernáculo ou carregados em procissão ou postos sobre altares (sendo tudo isso constantemente praticado na igreja romana). E como poderiam os israelitas deixar-se induzir a oscular e carregar relíquias quando (segundo a lei de Moisés) se considerava imundo aquele que apenas tocasse um cadáver? Lemos que Deus mesmo sepultou e ocultou o corpo de Moisés (Dt 34.6) a fim de que os israelitas não viessem a usar mal as relíquias de tão grande homem com fim idolátrico. É muito coerente com isto o fato de que não houve outra causa da contenda entre Miguel e Satanás (mencionada em Jd 9) senão que este queria exibir o corpo de Moisés, enquanto Miguel queria escondê-lo e mantê-lo oculto. Os discípulos levaram o corpo de Estêvão, o primeiro mártir, para sua sepultura e fizeram grande lamentação sobre ele (At 8.2), porém não se lê ali nada sobre prostração sobre seu ataúde ou oferecimento de culto religioso a seus ossos.
Cristo repreende, “ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque edificais os túmulos dos profetas, adornais os túmulos dos justos” (Mt 23.29), porém aqueles desprezavam a doutrina destes. Não menos deve ser censurado quem cultua e venera seus corpos mortos que jazem nos sepulcros. Paulo protesta que doravante a ninguém conhece “nem a Cristo segundo a carne” (2Co 5.16, a saber, para que ele use todo seu zelo e labor em buscá-lo e possuí-lo segundo o espírito). Ora, quem negaria que aqueles que buscam e adoram as relíquias de Cristo e dos santos desejam ainda conhecê-los segundo a carne? Assim é expressamente proibido “consultar os mortos em favor dos vivos” (ls 8.19).
Tal culto não só é  inútil (oferecido a coisas inanimadas e idolátrico carentes de todo sentido), mas também idolátrico e supersticioso (não lhes pode ser prestado sem sacrilégio, sendo devido somente a Deus). Tampouco é válida a incrustação de nossos oponentes, negando que rendem às relíquias um culto religioso absoluto (estrita e própria mente assim chamado ou adoração latrêutica [latreuticam], própria somente para Deus), mas apenas uma adoração relativa e doulêutica (douleiiticam). A Escritura não reconhece a diferença entre a adoração de latreia e douleia (absoluta e relativa), mas reivindica adoração religiosa simples e somente para Deus. Tampouco Deus julgará segundo essas distinções e intenções engenhosas, porém capciosas, de homens prevaricadores (das quais as pessoas comuns nada sabem), mas segundo a regra prescrita em sua Palavra.
 Esse culto fica exposto a milhares de fraudes e imposturas; enquanto que, em vez das verdadeiras relíquias ’ de Cristo e dos apóstolos, milhares de relíquias supersticiosas e adulteradas são impostas, e os corpos de muitos cujas almas são atormentadas no inferno são adorados sobre a terra (como disse Agostinho). Um exemplo é fornecido por Sócrates acerca de certo Ammonius (monge e ladrão) que foi adorado como santo durante muito tempo (Ecclesiastical History' 7.14 [NPNF2, 2:160]). Gregório de Tours testifica “que no ataúde de certo santo foram encontrados raízes, dentes de toupeiras, ossos de ratos e patas de raposas” (Historia Franconim 9.6 [PL 71.485]). Em Zurique, numa caixa de alto valor (na qual relíquias de um santo e os preceitos de mártires estavam supostamente depositados) foram encontradas (quando aberta durante a Reforma) algumas partículas de um rosto queimado, uma corda de cerca de seis metros de comprimento, costelas de um gato ou de algum animal semelhante. Nossa . Antes da Reforma, vangloriavam se  de duas relíquias especiais: o cérebro de Pedro e o braço de Antônio. O que se dizia que era o cérebro de Pedro, mais tarde se viu que era uma pedra-pomes, e o braço de Antônio não passava de quadril de veado. Cassandro não nega “que por avareza, para seduzir pessoas simples, relíquias falsas eram postas em vez de verdadeiras e milagres forjados eram divulgados, e a superstição foi nutrida por esses milagres” (“De Articulis Religi- onis ... consultado”, Art. 21 [“De Veneratione reliquiarum”] em Opera [1616], p. 973). Entretanto, seria impossível enumerar tais fraudes, visto que exemplos inumeráveis delas ocorreram por toda parte. Deste fato transparece claramente com quão grande libertinagem o clero insultava e ludibriava o pobre povo comum; sim, pareceria totalmente incrível que pudessem deixar-se seduzir por tais infames e contínuas imposturas, a menos que a própria coisa o proclamasse (cf. Calvino, Advertisement Tresutile... inventoire d e ... relieptes [CR 34.405-452] e Hospinian, “De Origine... Reliquiarum”, em De Origine Templorwn [ 1681 ], pp. 92-122). Portanto, tantas eram as relíquias cultuadas, que cultuavam sem saber o quê. Porque, depois da detecção de tantas fraudes e imposturas, que certeza pode haver de que de fato são relíquias dos santos as que têm a pretensão de o ser?
 O culto às relíquias (leipsanothrêskeia) era  desconhecido nos primeiros séculos do Cristianismo. Era  possível perceber isto mesmo a luz deste fato - com o máximo cuidado sepultavam os corpos dos mártires e santos, o que não teriam feito se presumissem que deviam ser adorados. Eusébio testifica que justamente assim procedeu a igreja de Esmirna com os ossos de Policarpo (Ecclesiastical Historv 4.15 [FC 19:242]). Não ocorre nenhuma menção desse culto às relíquias nos livros dos teólogos mais antigos, onde não só oportunamente, mas também quase necessariamente tinha de ser mencionado.Relicários tais como os que agora costumam contar constantemente com as armas e proteção dos romanistas eram então totalmente desconhecidos. Ora, à luz destes e de muitos outros argumentos semelhantes (os quais se pode ver coletados pelo célebre Daille, Adversus Latinonim de cultus religiosi obiecto 4 [1664], pp. 582-703), surge mais claro que o sol ao meio-dia que naqueles primeiros séculos o culto às relíquias era totalmente desconhecido e dele nada se ouviu; e que ele só foi introduzido nos séculos seguintes e deveras sucessivamente e passo a passo.
 A princípio as assembleias eclesiásticas começaram a  reunir-se nos sepulcros dos mártires, e, de fato, no dia de seu sofrimento; entretanto, não para cultuá-los e invocá-los, o que a * epístola de Esmirna o nega expressamente, mas “para que a mente de seus seguidores se despertasse por ilustres exemplos à maneira de seus predecessores” (cf. Agobard, Liber de Imaginibus Scinctorum 18 [PL 104.215]). Basílio confirma isto (Homily 19 [PG 31.507-526]). Agostinho escreve: “Para estimular a imitação, o povo cristão celebrava a memória dos mártires em relação com solenidades religiosas” (Replv to Faustus the Mani- chaean 20.21 [NPNF1, 4:262; PL 42.384]), o que então longe estava de superstição. Mas, no curso do tempo, as sementes da superstição foram semeadas gradualmente. Sob Constantino, o Grande, tiveram início a escavação e a trasladação de relíquias, incluindo-se os mais obscuros e os mais celebrados sepulcros. Aliás, isto foi designado pelo imperador com intenção própria e zelo louvável. Como ele queria transferir os vários ornamentos externos (que tinham granjeado algum respeito e autoridade pela religião pagã) para a religião cristã (para tomá-la mais aceitável, não só aos cristãos, mas também aos pagãos, como nos narra Eusébio em seu livro Life of Constantine 2.40 [NPNF2, 1:510]), assim, uma vez que viu que os pagãos transferiam com grande pompa e solenidade os corpos de reis e outros homens eminentes (caso estivessem sepultados em lugares um tanto obscuros) para monumentos mais esplêndidos (sim, inclusive depositando-os em templos magnificentes), concluiu que tal honra deveria também ser, mais apropriadamente, demonstrada para com os corpos e relíquias dos santos apóstolos de Deus, dos mártires e de outros. No entanto, quando os corpos e relíquias dos santos começaram a ser exumados e removidos, de repente penetrou nas mentes dos homens a persuasão de que os mártires e outros santos eram as colunas, as torres e os guardiães daquele país, cidade e lugar onde suas relíquias ou corpos foram depositados (como nos conta Basílio, The Long Rides, Questão 40 [FC 9:313,314])
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
O milagre  divinamente realizado junto aos ossos de Eliseu confirmou a fé cm sua precedente profecia c à irrupção vindoura dos moabitas, porém não favorece o culto religioso de seu corpo. Daí, nem antes nem depois desse milagre lemos de alguém haver visitado o sepulcro de Eliseu ou osculado seus ossos em atitude adorativa. E mais, aquele foi um milagre real e isento de toda c qualquer suspeita de falsidade (o que ninguém pode afirmar acerca dos pretensos milagres das relíquias). 
 O toque da roupa de Cristo foi um símbolo extraordinário de cura milagrosa (Mt 9.21). Contudo, em razão disso, nenhum outro símbolo dos milagres divinos foi cultuado religiosamente por qualquer pessoa piedosa; e, pela mesma razão, a roupa de Cristo (vestido com a qual ele quis valer-se para demonstração de seu poder divino) e as relíquias papais (as quais, ou duvidosas ou separadas do Cristo vivo, não podem ter a mesma virtude e eficácia).
A “sombra” de Pedro (At 5.15) e “lenços” e “aventais” de Paulo (que curavam os enfermos, At 19.12) eram igualmente símbolos de curas extraordinárias. Mas, que por causa deste ofício simbólico devem ser adorados, nem os apóstolos o ordenaram nem há evidência de que isso foi feito por alguém. Pedro, que não quis ser adorado por Cornélio quando vivo, porventura desejaria ordenar a adoração de seu cadáver? Ou permitiria que diante de sua sombra ou de aventais (de modo algum pertencentes à sua essência) os homens se prostrassem com reverência?
  O traslado dos ossos dos patriarcas tendia a confirmar sua fé na promessa de Deus concernente à posse da terra e ao Messias, que haveria nascer nela. Não obstante, isso não tinha nada a ver com o culto religioso de seus ossos (os quais foram sepultados outra vez).


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