Mateus 16.18 favorece a primazia de Pedro?
Tampouco os que desejam que a rocha seja uma referência à confissão de fé de Pedro recuam muito disso. Crisóstomo, sobre esse texto: “Sobre esta rocha, isto é, sobre a fé de sua confissão” (epi tautê lê Petra, toutesti lê pistei tês homologias, Homily 54, On Matthew [NPNF1, 10:333; PG 58.534]). Teofilato: “Esta confissão que fizeste será o fundamento dos crentes” (autê ê homologia ên õmologêsas themelion mellei einai tõn pisteuonfõn, Ennara- tio in Evangelium Matthaei [PG 123.320], sobre Mt 16.18). Basílio de Selêucia, sobre esta passagem: “Visto que Cristo denominou esta confissão de rocha, ele o chama de Pedro, o primeiro que a confessou, dando-lhe este designativo como uma marca e monumento de sua confissão. Pois esta é realmente a rocha da piedade, esta é a base da salvação, a muralha da fé, o fundamento da verdade, pois nenhum outro fundamento pode alguém lançar, senão o que já foi lançado, Jesus Cristo” (Oratio 25 [PG 85.298]). De nossos oponentes, Torquemada abraça esta opinião: “A igreja está fundada sobre uma rocha, isto é, a fé em Cristo” (Summa de Ecclesia 2.19* [1561], p. 134). Da mesma forma Dionísio Cartusiano, sobre esta passagem (“Ennaratio in Matthaei” [16:18], Opera Omnia [ 1900], 11:189), Gorranus e outros. Pois visto que a fé e a confissão não devem ser entendidas própria e subjetivamente, mas metonímica e objetivamente com respeito a Cristo, a quem abraçaram, a coisa tem a mesma equivalência, quer entendamos que o próprio Cristo é a rocha, ou a fé nele. Pois esta deve ser vista não tanto subjetivamente, com respeito a si mesma, mas objetivamente, com respeito a Cristo, a quem ela abraça. Mirando este mesmo fato, Ferus mui excelentemente explica esta passagem: “A rocha é primariamente Cristo, sobre quem toda a igreja é sempre edificada, ninguém pode lançar qualquer outro fundamento além do que já foi posto (a saber, Cristo). Além disso, por uma fé verdadeira somos unidos a Cristo, e, assim, de certo modo, petrificados (petrascimus), se assim podemos dizer. E, por isso, a fé cristã em si e a verdade evangélica constituem aquela sólida e inabalável rocha sobre a qual Cristo edificou a igreja” (In sacrosanctam lesu Christi evangelium secundiim Matthaeum [1559], p. 221, sobre Mt 16).

Primeiro, a Passagem é alegórica e metafórica, admitindo várias interpretações. Com toda certeza, ela não pode estabelecer um pontífice ecumênico, o que deve ser provado mediante alguma passagem expressa. Segundo, essas coisas certamente são ditas a Pedro, mas não sobre Pedro. As razões são várias, (a) Das próprias palavras, porque Petra é expressamente distinta de Petro, seja em pessoa, seja em gênero, como a denominação e o denominado. No entanto, se ele quisesse indicar Pedro, por que ele usa ambos? Por que não disse: “Tu és Pedro, e sobre ti” (o que teria removido toda dificuldade)? Antes, ele diz: “e sobre esta pedra”. Ora, ainda que Cristo falasse em Siríaco, cm cujo idioma kh ’ph ’ significa indiferentemente Petrum e Petram, contudo a diferença não é removida, seja porque difere em gênero, pois, quando é entendido por petra, é feminino, quando é entendido como uma pessoa, é masculino; seja porque Mateus (que sem dúvida conhecia melhor a mente de Cristo e cujo texto é autêntico) quis distinguir entre petron e petram (visto que, não obstante, segundo o costume dos gregos, ele poderia ter dito com o mesmo som e o mesmo gênero), (b) Da natureza da coisa, porque Pedro não pode ser chamado o fundamento da igreja, visto que nenhum outro fundamento pode ser posto além de Cristo (ICo 3.11), e ele mesmo é membro da igreja, a qual deve ser edificada sobre Cristo, como os outros e ele mesmo ensinam (IPe 2.5,6). Se é possível dizer que a igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos, isso não deve ser entendido com respeito à sua pessoa, mas com respeito à sua doutrina, (c) Naquele tempo não se poderia dizer que Pedro era uma Petra, no presente, visto que, mais tarde, ele negaria a Cristo, e sua queda provaria suficientemente que ainda não era tão forte que pudesse ser chamado a rocha inamovível (petra asaleutos) de que se trata aqui. Aliás, Cristo é compelido, mais tarde, a chamá-lo Satanás, (d) Ela trata da fundação da igreja militante, bem como da triunfante, da qual ninguém diria que Pedro era o fundamento. Tampouco se deve objetar aqui o pronome taufê, o qual parece referir-se ao que o precede imediatamente. Pois é sabido que pronomes relativos e demonstrativos nem sempre se referem às palavras precedentes mais próximas e imediatas, mas, às vezes, às mais remotas, onde se exija a natureza da coisa (como em At 3.15,16, o pronome autoii deve referir- se duas vezes ao mais remoto, ou seja, a archêgonzõês, e não a Deus, que está mais próximo; assim acontece também com frequência em outros lugares). Além disso, o Espírito Santo não usa um mero pronome, mas o próprio substantivo é adicionado, o que remove a ambiguidade - “sobre esta pedra”. Assim: “Este é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados. E digo-vos que, desta hora em diante, não beberei mais deste fruto da videira” (Mt 26.28,29). Se simplesmente tivesse dito ek toutou, poderia ter se referido a haima. Justamente por isso, ele acrescenta “deste fruto da videira”, para remover a ambiguidade. Assim, para que ninguém aplicasse o que Cristo acrescenta acerca da edificação da igreja sobre uma rocha à pessoa de Pedro, ele não ficou satisfeito apenas com o demonstrativo, mas separou distintamente a rocha de Pedro (o que o intérprete da Vulgata reteve: “Tu es Petrus, et super hanc Petram"). Deveras confesso que há aqui certa relação (schesin) a Pedro, não para declarar que sua pessoa seria a rocha sobre a qual a igreja seria edificada (o que já provamos ser falso), mas com respeito à imposição do nome. Pois Cristo, para ficar satisfeito com Pedro, lhe dá um novo nome, o qual se deriva dessa rocha mediante uma paranomásia, como se quisesse dizer: “Tu, Pedro, serás por mim chamado a rocha, a qual tens confessado, sobre a qual edificarei minha igreja”. Portanto, ele é denominativamente chamado Cefas, de cepha, uma rocha; assim como foi chamado por Cristo, a pedra viva, o próprio Pedro chama os crentes de pedras vivas (IPe 2.5).
Em vão acrescenta-se que Cristo aqui promete algo notável e peculiar à pessoa de Pedro como galardão pela gloriosa confissão que fez. Este não seria o caso se ele não estivesse subentendido pela rocha. Pois, em primeiro lugar, assim como Pedro respondeu não só em seu próprio nome, mas no nome dos demais apóstolos em sinal da unidade da fé de todos, como Cristo havia interrogado a todos: “Mas, vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15), assim também a resposta de Cristo (que é adicionada) deve aplicar-se a todos com respeito à sua doutrina e apostolado. Todavia, isso não impede que Cristo faça aqui uma referência especial a Pedro, que falava em nome de todos, para que lhe concedesse algum privilégio acima dos demais, não uma monarquia fictícia e pontificado ecumênico, que são incompatíveis (asystatos) com o sacerdócio e autoridade real de Cristo, mas uma mudança gloriosa de nome, como símbolo da firmeza da fé que estava para lhe outorgar (Lc 22.32) e da obra fiel que realizaria no exercício de seu ofício. Sei que alguns dos escritores antigos, e depois deles alguns dos modernos, afirmam que, assim, foi atribuído um privilégio e um ofício peculiar a Pedro, de forma que ele seria o primeiro a pregar o evangelho entre os judeus, bem como entre os gentios, e, assim, fundaria e reuniria a igreja cristã (At 2.14; 10.34). Porém, ainda que isso seja procedente, não se enquadra aqui. Pois, além do fato de que este seria um privilégio pessoal dado a Pedro, não poderia pertencer ao papa. E, assim, ele, de fato, seria chamado, com razão, um arquiteto e fundador por meio de quem a igreja devia ser edificada; porém não seu fundamento, sobre o qual devesse edifica-lá, como Cristo afirma aqui.
Terceiro, a Escritura nos dá a chave para este mistério, visto que, em outras partes, ela nos exibe Cristo sob o símbolo de uma rocha, como sob o Antigo Testamento Deus tem o nome de rocha que sustenta a igreja (Dt 32.4; ls 26.4). Cristo mesmo assim explica: “A rocha que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular” (Mt 21.42). Pedro, seguindo Cristo, confirma isso (At 4.11; IPe 2.7*). Da mesma forma, Paulo chama Cristo a pedra angular (Rm 9.33; 1 Co 3.11) e o único fundamento, além do qual nenhum outro foi posto. Com respeito a isso, muitos dos pais entenderam aquela rocha como Cristo, a quem Pedro confessara. Agostinho diz: “Portanto, tu és Pedro, e sobre esta rocha, que tens confessado, sobre esta rocha, que tens reconhecido, dizendo: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, edificarei minha igreja, sobre mim mesmo, que sou o Filho do Deus vivo, edificarei minha igreja, sobre mim mesmo a edificarei, não eu mesmo sobre ti” (Sermon 76, “De Verbis Domini [ 13]” [PL 38.479]). Ele confirma isso com frequência em outros lugares: Retractions 20* (FC 60.90,91); Tractate 124, On the Gospel ofJohn (NPNF1, 7:450). Hilário: “Há, pois, um só e inamovível fundamento da fé, esta única e bendita rocha, confessada pela boca de Pedro: tu és o Filho do Deus vivo” (The Trinity 2.23 [FC 25:54; PL 10.66]). Vários dentre nossos oponentes seguem esta posição. Lyranus: “Sobre esta rocha que tens confessado, isto é, sobre Cristo” (cf. Bíblia sacra cum glossa ordinaria [1617], 5:279, sobre Mt 16.18). O Comentário Interlinear explica que a rocha é “Cristo, em quem tu crestes” (ibid.). O Comentário dos decretos: “Por esta distinção, e sobre esta rocha, não creio que o Senhor quisesse dizer outra coisa senão que aquelas palavras com que Pedro respondeu ao Senhor quando disse: tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, porque sobre tal artigo a igreja foi fundada. Portanto, Deus fundou a igreja sobre si mesmo” (Graciano, Decretum Gratiani emendatum, Pt. 1, Dist. 19*.7 [1601], p. 103). Também Tostatus, bispo de Abulensis: “Pergunta-se, quando Cristo diz ‘sobre esta rocha edificarei minha igreja’, qual é a rocha. Há quem diga ser Pedro, ou seja, que sobre ele a igreja foi edificada, isto é, ele é o fundamento da igreja. Porém deve-se dizer que, considerando a fundação ou a edificação da igreja com propriedade, não é verdade que ela foi edificada sobre Pedro, pois aquilo sobre o que está edificada é o fundamento, e assim se poderia dizer que Pedro é o fundamento da igreja; porém isso é falso, porque somente Cristo é o fundamento ( ICo 3.11). Somente ele também é o Cabeça da igreja; no entanto, todos nós somos membros (como se deduz de ICo 12; Ef 4). Pedro, pois, é um membro, e não o cabeça, nem o fundamento da igreja” (“Quatrapars Abulensis super Mattheum”, Opera [1507-31], p. 110, sobre Mt 16, Q. 67). Peter Ailly (Cardeal Cameracensis/Cambrai) e outros não diferem disso.
Tampouco os que desejam que a rocha seja uma referência à confissão de fé de Pedro recuam muito disso. Crisóstomo, sobre esse texto: “Sobre esta rocha, isto é, sobre a fé de sua confissão” (epi tautê lê Petra, toutesti lê pistei tês homologias, Homily 54, On Matthew [NPNF1, 10:333; PG 58.534]). Teofilato: “Esta confissão que fizeste será o fundamento dos crentes” (autê ê homologia ên õmologêsas themelion mellei einai tõn pisteuonfõn, Ennara- tio in Evangelium Matthaei [PG 123.320], sobre Mt 16.18). Basílio de Selêucia, sobre esta passagem: “Visto que Cristo denominou esta confissão de rocha, ele o chama de Pedro, o primeiro que a confessou, dando-lhe este designativo como uma marca e monumento de sua confissão. Pois esta é realmente a rocha da piedade, esta é a base da salvação, a muralha da fé, o fundamento da verdade, pois nenhum outro fundamento pode alguém lançar, senão o que já foi lançado, Jesus Cristo” (Oratio 25 [PG 85.298]). De nossos oponentes, Torquemada abraça esta opinião: “A igreja está fundada sobre uma rocha, isto é, a fé em Cristo” (Summa de Ecclesia 2.19* [1561], p. 134). Da mesma forma Dionísio Cartusiano, sobre esta passagem (“Ennaratio in Matthaei” [16:18], Opera Omnia [ 1900], 11:189), Gorranus e outros. Pois visto que a fé e a confissão não devem ser entendidas própria e subjetivamente, mas metonímica e objetivamente com respeito a Cristo, a quem abraçaram, a coisa tem a mesma equivalência, quer entendamos que o próprio Cristo é a rocha, ou a fé nele. Pois esta deve ser vista não tanto subjetivamente, com respeito a si mesma, mas objetivamente, com respeito a Cristo, a quem ela abraça. Mirando este mesmo fato, Ferus mui excelentemente explica esta passagem: “A rocha é primariamente Cristo, sobre quem toda a igreja é sempre edificada, ninguém pode lançar qualquer outro fundamento além do que já foi posto (a saber, Cristo). Além disso, por uma fé verdadeira somos unidos a Cristo, e, assim, de certo modo, petrificados (petrascimus), se assim podemos dizer. E, por isso, a fé cristã em si e a verdade evangélica constituem aquela sólida e inabalável rocha sobre a qual Cristo edificou a igreja” (In sacrosanctam lesu Christi evangelium secundiim Matthaeum [1559], p. 221, sobre Mt 16).
. Algumas chaves são de domínio e principado, tais como as chaves de cidades, as quais são dadas a um príncipe por seus súditos como emblema de homenagem. Nesse sentido, lemos que Cristo tem “a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará; e que fecha, e ninguém abrirá” (Ap 3.7), isto é, cujo poder é supremo e hanypeuthynos (“não sujeito à crítica humana”). Outras chaves são de ministério e sujeição, tais como as que são dadas pelo principal oficial e mordomo de uma casa e por um chefe econômico e providente de uma família, não implicando primazia, mas apenas serviço (diakonian) e dever. Tais são as chaves que Cristo promete dar a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino do céu”. Além disso, elas são duplas: de conhecimento e ciência, pelas quais, mediante a pregação da Palavra, são abertos os tesouros dos mistérios celestiais e a mordomia (tameia) da Escritura, na qual o pão da vida está oculto para o sustento dos crentes. Assim o oficio da pregação é bem implícito, como entre os judeus a inauguração dos mestres era geralmente acompanhada pela entrega de chaves. E Cristo (referindo-se a isso em Lc 11.52) repreende os escribas e fariseus, porque tiraram do povo a chave do conhecimento, de modo que nem entravam nem permitiam que outros entrassem. A partir desse poder, ele adverte os escribas e fariseus que seriam removidos, para que este fosse entregue às mãos dos apóstolos, os quais fariam um uso correto dessas chaves mediante sua pregação, abrindo a porta da fé e da salvação aos homens e por meio do governo e da disciplina, pelos quais o céu é aberto aos penitentes e fechado aos rebeldes c incrédulos. Ambas são prometidas aqui por Cristo e o exercício delas é designado nas palavras seguintes: “o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus”. Aqui, Cristo passa de uma metáfora para outra, como não é incomum ao Espírito Santo unir diversas similitudes para uma explanação mais clara de um e o mesmo mistério. Tudo indica que seria melhor dizer “abrir e fechar” (que é a função de chaves), do que “ligar” e “desligar”; no entanto ele preferiu usar os verbos ligar e desligar, ambos significando a amplitude do poder (que daria a Pedro, pelo qual ele poderia não só abrir e fechar, mas também ligar e desligar)
Ora, esse poder não pode ser considerado absoluto e ilimitado. Ele pertence somente a Deus, e somente ele tem o poder de perdoar pecados (Mt 9.3). Antes, este é considerado apenas de forma ministerial e dependente, visto que, no nome e autoridade de Deus, declaram com base em sua Palavra o que deve ser esperado pelos crentes e penitentes, e o que deve ser temido pelos contumazes e impenitentes. Tampouco pode negar isso. Aqui reconhecem que o Senhor fala do poder das chaves, pelo qual os apóstolos e seus sucessores retêm ou absolvem os pecadores (“De Romano Pontífice”, 1.12 Opera [1856], 1:335-41). Daí ser evidente que a primazia de Pedro é buscada aqui em vão. Pois, ainda que aqui se prometa algo peculiarmente a Pedro, contudo nada peculiar se lhe promete aqui. A promessa em si, ou o ato de prometer, lhe era peculiar (visto que se dirige a ele nominalmente), mas a coisa prometida era comum, pertinente também aos demais, em cujo nome Pedro falou. Isso é evidente com base em Mateus 18.18 e João 20.23, onde o mesmo poder (designado aqui por ligar e desligar) é descrito por uma retenção de remissão de pecados e é atribuído igualmente a todos os apóstolos: “Se de alguns perdoardes os pecados...”.
Ainda que Pedro receba a ordem de apascentar as ovelhas de Cristo (Jo 21.15,16), ele não é diretamente constituído o monarca da igreja ou soberano pontífice. (1) Esta é uma exortação, não a instituição de um novo ofício. (2) Uma coisa é apascentar; outra, governar. O ato pastoral às vezes se estende à autoridade dos reis e indica domínio, em cujo sentido os reis são chamados por Homero “pastores do povo” {poimenes laõn, cf. Eustathius, Commentarii ad Homeri tliadem, 1.7 [1979], 3:165), e Cristo é chamado o pastor de suas ovelhas. Por isso ele é chamado, à guisa de eminência (kat’ exochên), “o pastor-chefe” (archipoimên, IPe 2.25; 5.4) e “o grande pastor” (Hb 13.20). No entanto, essa significação não pode prevalecer aqui, quando se trata de apóstolos e ministros, seja porque este ofício de apascentar é expressamente oposto a dominar (“Pastoreai o rebanho de Cristo, não como dominadores da herança de Deus”, 1 Pe 5.3), seja porque tal domínio é expressamente proibido por Cristo (Lc 22.26). Finalmente, porque a Pedro se ordena que apascente as ovelhas de Cristo, não as dele, para notificar que ele tinha de cumprir este dever não como senhor e príncipe das ovelhas, mas como servo de Cristo. (3) Este ofício não é imposto unicamente a Pedro, mas também aos demais apóstolos, sim, também a todos os ministros: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com seu próprio sangue” (At 20.28). Portanto, nem todos os que recebem a ordem de apascentar as ovelhas é um monarca; do contrário, haveria tantos monarcas quantos são os ministros. E, assim, essa palavra não deve ser entendida aqui em toda a sua extensão, mas em conformidade com o tema. E como seria insano quem, a partir do fato de que os reis são chamados pastores do povo, afirmasse que a pregação do evangelho lhes pertencia, assim não está longe da insanidade quem contendesse dizendo que é dado império àquele a quem é imposto o ofício de apascentar. Portanto, lhe é ordenado apascentar não como dominador, mas com a incumbência de pregar e ministrar, apascentar com conhecimento e discernimento (Jr 3.15) e governar de maneira pastoral.
Tampouco se deve replicar que aqui se atribui algo a Pedro à guisa de eminência (kat ’ exochên), porque a palavra é dirigida somente a ele, e isso por três vezes. O que é dito a Pedro particularmente não foi a fim de que ele fosse constituído o primeiro e príncipe dos apóstolos, mas para que à sua tríplice negação (pela qual parecia haver fracassado em seu apostolado) se opusesse sua tríplice restauração a uma estipulação de amor e de dever, de modo que, pela tríplice confissão, ele pudesse compensar sua tríplice negação: como Agostinho explica depois de Cirilo e outros, a quem muitos romanistas - Jansen, Toletus, Maldonatus e outros - seguem (Tractate 123, On the Gospel of John [NPNF1, 7:445]). Assim, Cristo desejava solenemente restaurar aquele único que havia pecado e, assim, ele foi obrigado a satisfazer a Cristo, a quem negara três vezes, e a seus condiscípulos, os quais ele preferiu a si mesmo (Lc 22.33). Se Pedro parece então ser restaurado ao seu estado anterior pela influência de Cristo e à sua igual missão com os demais (Jo 20.22), daí resulta que ele não poderia ser fortalecido por Cristo de uma forma peculiar. Visto que pecara mais gravemente, ele se viu em necessidade de maior confirmação e consola ção. É verdade que os demais apóstolos, abandonando a Cristo, fugiram, mas Pedro foi o único que o negou com juramento, envolvendo somente a si próprio. Além do mais, o mistério não deve ser buscado na distinção de “ovelhas” e “cordeiros” (feita aqui por Cristo), leitura esta que Toletus julga ser mais aprovada que aquela que Belarmino quis introduzir contra o grande consenso de cópias e a autoridade da Vulgata (que formula somente dois graus, não três, como mantém o cardeal, ou seja, “cordeiros”, isto é, das nações; de “ovelhi- nhas”, isto é, os bispos; e “ovelhas”, isto é, os apóstolos). O mistério, repito, não deve ser buscado nisso. Jansen, sobre esta passagem, ensina (como faz Maldonatus): “Não se deve disputar com sutileza por que ele os chamou cordeiros em vez de ovelhas, e que aquele que o faz reiteradamente cuide-se para não propiciar riso aos homens eruditos”. Uma comparação de passagens demonstra que estas palavras são usadas indiferentemente ( Mt 10.6; Lc 10.3; ls 53.7; At 8.32). Assim os pais o explicam (cf. Crisóstomo, Homily 88*, Homilies on St. John [NPNF1, 14:331] e Agostinho, Tractate 123, On the Gospel of John [NPNF 1,7:445]).
As prerrogativas que têm sido atribuídas a Pedro, não importa de que gênero sejam, não implicam uma primazia de autoridade (do que já tratamos), mas somente uma primazia de ordem e dignidade, o que não impede que Paulo ignore qualquer superior sobre si. Paulo e João, igualmente, tiveram suas prerrogativas, das quais, contudo, seria ridículo inferir pontificado soberano. Estas prerrogativas são ou incertas e falsas ou vãs e inúteis; não provam separadamente, nem conjuntamente, uma primazia. Nem “a mudança de nome”, porque o nome não lhe foi propriamente mudado, mas acrescido (Mt 17.25; 2Pe 1.1); além disso, essa nova imposição de nome foi comum com os filhos de Zebedeu, que eram chamados de Boanerges. Não que “ele fosse posto em primeiro lugar” (Mt 10.2; Mc 3.16; Lc 6.14). Pois além do fato de que isso não é uniforme (pois outros são, em outras partes, postos antes dele: André [Jo 1.40]; Paulo e Apoio [ICo 3.22]; Tiago [G1 2.9]), ele poderia ter sido chamado assim com respeito à ordem ou à idade, ou aos dons; não com respeito ao poder e jurisdição, como o primeiro cônsul numa cidade não é o cabeça do senado. Nem “por haver andado sobre as águas”, o que apenas mostra seu fervor e precipitação (propeteian). “Pedro”, diz Crisóstomo, “aquele que por toda parte se adianta e sempre sai em campo antes dos outros” (ho pantachou thermos, kai aei tõn allõn propêdõn, “Homily 51”, The Gospel of Matthew [NPNF1, 10:317; PG 58.514]). Nem “a revelação de maiores mistérios de fé”, porque isso não fez dele o único, nem o primeiro. Nem “pagamento de tributos por Cristo e Pedro”, e não pelos outros, porque havia uma razão especial por que ambos deviam fazer aquela quitação - viviam na mesma cidade, isto é, em Cafamaum, que é chamada a cidade de Cristo e onde Pedro tinha sua casa. Nem “a pesca de um grande volume de peixes” (Jo 21.6,7), porque isso indica seu ministério (não seu domínio) como um sinal da pesca evangélica (Lc 5.10), pela qual ele chamaria do mundo inúmeros homens. Nem “a oração de Cristo por ele”, a qual é mais um testemunho de sua fraqueza, e não tem outra referência do que à perseverança e à fé. A confirmação dos irmãos, que lhe é imposta, não indica primazia, mas serviço e ofício (o que em outro lugar é reivindicado por Paulo e Barnabé, At 14.22; 18.23). Nem que “ele apareceu primeiramente a Pedro depois de sua ressurreição” (Lc 24.1 -12; ICo 15.5), porque ele apareceu primeiramente às mulheres. Nem que “ele lavou primeiramente seus pés” ou “predisse sua morte”, ou que “foi o primeiro a falar aos apóstolos reunidos” (At 1.15), ou “o primeiro a pregar o evangelho”, ou “o primeiro a falar no concílio” (At 15.7). Pois estas e outras coisas semelhantes apresentadas ou são incertas, ou não provam prerrogativa, ou são simplesmente uma primazia apenas de ordem.
Se em alguma ocasião os pais chamaram Pedro de cabeça e príncipe dos apóstolos, não fizeram isso com respeito a um pontificado ecumênico ou monárquico, mas com respeito a uma “primazia de ordem e dignidade”, ou em virtude dos dons nos quais se distinguia dos demais (em cujo sentido, cf. 2Co 2). O apóstolo chama alguns de apóstolos (tons pyer lian apostolous) e, em outro lugar, colunas (stylous, G1 2.9). E, assim, Cirilo de Jerusalém diz: “o príncipe mais excelente dos apóstolos”; Cirilo de Alexandria, “o príncipe e cabeça dos demais”; Teofilato, “o príncipe dos discípulos”; outros, “o corifeu dos apóstolos”. Porém em que sentido se devem entender tais elogios, Eusébio nos informa quando diz que “ele foi o chefe natural dos demais” (a saber, dos apóstolos) “em virtude da grandeza de sua coragem” (fês aretês heneka fõn loipõn hapantõn proêgoron), como com frequência entre os escritores as palavras archêgoe e koryphaios têm este significado (Ecclesiastical History 2.14 [FC 19:109; PG 20.172]). Porém isso não é raramente atribuído por eles também a outros. Por isso Pedro e Paulo são, com frequência, chamados pelos pais de “príncipes dos apóstolos”.
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