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A versão hebraica do Antigo Testamento e a versão grega do Novo Testamento são, de fato, autênticas?




Das versões das Escrituras, algumas são prõtotypoi ou archetypoi (“originais” e “primárias”), que os autores usaram. Outras são ektypoi (ou “secundárias”), a saber, versões que fluem delas em outros idiomas. Todos admitem que a hebraica do Antigo Testamento e a grega do Novo Testamento são as originais e primitivas. Nós, porém, com os papistas, discutimos se cada uma é autêntica, de si mesma merecedora de fé e autoridade, bem como o padrão ao qual todas as versões devam ser aplicadas.
Alguns dos papistas costumam ser mais favoráveis às fontes, asseverando sua pureza (como já vimos), atribuindo-lhes ’ autenticidade como conseqüência da pureza e declarando que todas as versões, inclusive a Vulgata, devem ser remetidas a elas e podem ser corrigidas por elas: como Sixtus Senensis (BibliothecasanctaS, haer. 2 [1575], 2:314-19), Driedo (“De ecclesiasticis scripturis et dogmatibus”, 2, em Opera [ 1572], 1:23-62) e Andradius (Defensio tridentinae fidei catholicae 2 [ 1580], pp. 167-460), entre outros. Não obstante, muitos se mostram mais hostis a elas, declarando que não há infalibilidade no texto hebraico, que não devemos recorrer às fontes em controvérsias de fé nem corrigir a versão Vulgata por meio delas: como Stapleton (“De Principiis fidei doctrinalibus controvérsia”, Cont. 5, Q. 3, Art. 1, em Opera [1620], 1:771-74), Cano (“De Locis Theologicis”, 2.11 e 2.13, em Opera [ 1605], pp. 65-85,90-100), Lindanus e outros que argumentam em prol da corrupção das fontes. Essa opinião é oriunda de um decreto do Concílio de Trento, Sessão 4, o qual diz que “a Vulgata Latina deve ser tida como autêntica na leitura pública, nas disputas, na pregação e nas exposições, de modo que ninguém ouse rejeitá-la sob qualquer pretexto” (Schroeder, pp. 18, 297). Diversos papistas (envergonhados desse decreto) tudo fazem para anexar-lhe uma significação diferente, como se o Concílio nada houvesse decretado contra a autenticidade dos originais nem preferido a Vulgata às fontes, mas apenas escolhido apenas uma das versões latinas em circulação, como a melhor entre as demais (Belarmino, VD 2.10, pp. 75-77). Essa é também a opinião de Andradius, Salmeron, Serarius, entre outros. Bannes, porém, convenientemente, exclama contra isso como uma distorção do decreto sinodal, e o demonstram claramente as palavras do decreto. Pois, se ela deve ser considerada como autêntica, de modo que ninguém ouse rejeitá-la sob qualquer pretexto, não é posta em pé de igualdade com as próprias fontes, sim, e até exaltada acima delas? E, mesmo que ela discrepe das fontes, não deve ser corrigida por elas, mas, antes, as fontes devem ser corrigidas por ela. Por isso Mariana queixa-se de que, depois dessa promulgação do Concílio de Trento, “a grega e a hebraica sofreram um golpe” (de V.V., p. 99+). Nossa opinião é de que a hebraica do Antigo Testamento e a grega do Novo Testamento sempre foram e ainda continuam sendo as versões autênticas, por meio das quais todas as controvérsias de fé e religião (e todas as versões) devem ser aprovadas e testadas.
  Um escrito autêntico é aquele no qual todas as coisas que as uni são sobejamente suficientes para inspirar confiança; no qual se deve dar o mais pleno crédito devido a seu gênero; aquele do qual podemos estar inteiramente seguros de que procedeu do autor cujo nome figura nele; aquele no qual tudo está escrito justamente como o autor desejava. Não obstante, um escrito pode ser autêntico de duas maneiras: primária e originalmente ou secundária e derivadamente. O escrito é autêntico quando é autopiston (“em si mesmo inspirador de confiança”), é digno de crédito e ao qual se deve dar crédito em virtude de si mesmo. Dessa maneira, os originais de editos reais, decretos de magistrados, testamentos, contratos e os autógrafos de autores são autênticos. Os escritos secundariamente autênticos são todas as cópias acuradas e fidedignamente tomadas dos originais por homens aptos, tais como os escreventes designados para esse propósito por autoridades públicas (para os editos de reis e outros documentos públicos) e quaisquer escribas e copistas honestos e criteriosos (para livros e outros escritos). Os autógrafos de Moisés, dos profetas e dos apóstolos são autênticos no primeiro sentido. No segundo sentido, suas cópias fiéis e acuradas são também autênticas.  Além disso, um escrito autêntico tem duas autoridades: uma se funda nas coisas das quais ele trata e tem relação com os homens aos quais o escrito se destina; a outra se ocupa com o próprio tratado e escrito, e se refere às cópias e traduções feitas a partir dele. Todas essas devem referir-se ao escrito autêntico, e, se discreparem dele, deverão ser corrigidas e emendadas. A primeira autoridade pode ser ou maior ou menor, em conformidade com a autoridade daquele de quem o escrito procede e em proporção ao poder que ele tem sobre as pessoas a quem endereça seu escrito. Nas Escrituras Sagradas, porém, essa autoridade é a mais elevada, tal que não se pode encontrar em nenhum outro escrito, visto que somos obrigados a imediatamente crer em Deus por aquele supremo poder que ele tem sobre os homens, bem como sobre todas as coisas, e pela verdade e pela sabedoria mais elevadas que o distinguem, e obedecer a todas as coisas que sua sacratíssima Palavra (contida na Escritura autêntica) ordena para a fé ou prática. Mas a segunda consiste nisto: que os autógrafos, bem como as cópias acuradas e fiéis, sejam o padrão de todas as cópias do mesmo escrito e de suas traduções. Se algo for encontrado nelas diferente dos escritos autênticos, sejam autógrafos ou apógrafos, são indignas do título autênticas, e devem ser descartadas como espúrias e adulteradas, sendo a discordância razão suficiente para sua rejeição. Sobre a primeira autoridade falamos na Quarta Pergunta, sobre a “autoridade das Sagradas Escrituras”. Agora trataremos da outra, que ocorre na versão autêntica.  Finalmente, a autenticidade pode ser considerada de duas formas: materialmente, sobre as coisas anunciadas, ou formalmente, sobre as palavras e o modo de anunciação. Não falamos aqui de autenticidade no primeiro sentido, pois não negamos isso às versões quando concordam com as fontes, mas somente no segundo sentido, que diz respeito somente às fontes.
As razões são: (1) somente as fontes são inspiradas por Deus no que concerne as coisas ou as palavras Antigo Testamento . . , (2*Tm 3.16); por isso somente elas podem ser autenticas . Tudo o que os homens de Deus escreveram são as únicas   edições autênticas. sob a influencia do Espirito Santo (2Pe 1.21), o qual, para guardá-los do erro, ditou não só a matéria, mas também as palavras, o que não se pode dizer de nenhuma versão. (2) São o padrão e a norma que devem ser aplicadas a todas as versões, justamente como a cópia (ektypon) deve corresponder ao padrão (archetypon) e a corrente distinguir-se de sua fonte. A isso diz respeito o cânon de Graciano: “Como a fé dos antigos livros deve ser testada pelos volumes hebraicos, assim a verdade dos novos necessita do escrito grego para sua norma” (“Decreti, Pt. I”, Dist. 9*.6, em Corpus Iuris Canonici [org. A. Fricdberg, 1955], 1:17). Jerônimo está saturado desse tema em defesa da autoridade do texto hebraico como a fonte à qual todas as correntes das versões devem ser delineadas e por ela corrigidas (Letter 26 [102], “Ad Marcellam” [PL 22.430-31]; Letter 72, “Ad Vitalem” [PL 22.673-76]; Letter 106, “Ad Suniam et Fretellam” [PL 22.837-67]). (3) Essas edições são autênticas desde seus primórdios, e sempre foram consideradas assim pelas igrejas judaica e cristã muitos séculos depois de Cristo. Não se pode apresentar qualquer razão porque devam agora deixar de ser autênticas. Quanto ao argumento de corrupção (além de tomar por admitida a coisa a ser provada), já foi respondido por nós.
 (4) Se a edição hebraica do Antigo Testamento e a edição grega do Novo Testamento não fossem autênticas (authentias), não haveria nenhuma versão autêntica, visto que nenhuma, além dessas, tem o testemunho divino de sua autenticidade. E assim não haveria nenhuma autêntica Palavra de Deus na igreja, o fim de nenhuma contenda, porque não haveria nenhuma regra segura de fé c prática na qual pudéssemos ter plena confiança. E as Escrituras, como um nariz de cera, ou a norma lesbiana, poderiam ser torcidas ao bel-prazer e de qualquer maneira. (5) Nossos oponentes reconhecem que, em certos casos, é certo recorrer às fontes. Belarmino assevera: (a) “quando nos manuscritos latinos aparece ali um erro de copistas; (b) quando têm várias leituras e há incerteza sobre a genuína; (c) quando há alguma ambigüidade nas palavras ou coisas; (d) quando a força (energia) e o significado das palavras não são plenamente expressos” ( VD 2.11, p. 78). Ora, isso não se poderia fazer se as fontes não fossem autênticas. Arias Montanus mostra, por meio de várias considerações, que os erros das versões não poderiam ser corrigidos exceto com base na veracidade do idioma primitivo (“Praefatio”, Bíblia sacra Hebraice, Chaldai- ce, Graece et Latine [1572], vol. 1). Vives crê que as fontes devem segura e inquestionavelmente consultadas (Saint Augustine, ofthe Citie ofG od... with ... coments of Lodovicus Fives 14.8 [1620], p. 480). Salmeron, Bonfrerius, Ma- sius, Muis, Jansen, com seus discípulos, entre outros, são da mesma opinião.
 As várias leituras que existem não destroem a autenticidade das Escrituras, porque podem ser facilmente distinguidas  em parte pela conexão da passagem, em parte por uma comparação com os melhores manuscritos. Algumas são de um tipo tal que, embora diferentes, podem pertencer ao mesmo texto.  Várias contendas são oriundas das fontes hebraicas e gregas; contudo, não se segue que elas não possam ser autênticas. Se esse fosse o caso, não haveria absolutamente nenhuma edição autêntica para se consultar, visto que o próprio idioma suprirá material suficiente de controvérsia aos contenciosos. Então, uma vez mais, isso não provém de falha das fontes, mas daqueles que abusam delas, ou por não entendê-las, ou por torcerem as palavras para que se ajustem a seus propósitos e aderir-lhes persistentemente. Não há verdade na afirmação de que a edição hebraica do Antigo Testamento e a edição grega do Novo Testamento estão mutiladas; além disso, os argumentos de nossos oponentes não podem prová-la. Nem com base na história da mulher adúltera (Jo 8.1-II), pois, embora não esteja presente na versão Siríaca, está presente em todos os manuscritos gregos; nem com base em 1 João 5.7, pois embora alguns antigamente o tenham posto em dúvida, e hereges hoje fazem o mesmo, todas as cópias gregas o têm, como Sixtus Senensis reconhece: “elas têm sido as palavras de uma verdade que nunca merece dúvida, e constavam em todas cópias gregas dos dias dos apóstolos” (Bibliotheca sancta [ 1575], 2:298). Nem podem provar com base em Marcos 16, o qual poderia estar ausente em várias cópias nos dias de Jerônimo (como ele assevera), mas agora ocorre em todas, até mesmo na versão Siríaca, e é claramente necessário para completar a história da ressurreição de Cristo.  A fim de enfraquecer a autenticidade (cmthenthm) da edição hebraica, nossos oponentes têm recorrido à “novidade dos pontos” (em vão, como se a pontuação fosse mera invenção humana, engendrada pelos massoretas, e por isso fundamentada na autoridade humana, não sobre a autoridade divina e infalível, e pudesse ser mudada ao bel-prazer, sem risco, deixando sempre o significado de uma passagem incerto e duvidoso). É possível dar várias respostas a isso. (1) “os erros oriundos dos pontos não interferem na verdade, porque vieram de fora e não mudam o texto” (VD 2.2, p. 65). (2) Sobre essa hipótese, não só a infalibilidade do texto original cai, mas também a da Vulgata, que foi tirada daquela fonte (a menos que se prove que o primeiro autor daquela versão - se conta com Jerônimo ou com algum outro - recebeu uma revelação das palavras necessárias diretamente do Espírito; não fosse esse o caso, seria certo que ele recebeu o texto da edição dos judeus; se esta fosse incerta, toda a autoridade do texto sacro desabaria).  (3) Mesmo que os pontos tenham sido adicionados posteriormente (sustentam que sua origem remonta aos massoretas de Tiberíades), não se seguiria que a pontuação foi uma invenção meramente humana, dependendo exclusivamente da vontade humana (que, se estabelecida, enfraqueceria grandemente a autenticidade do manuscrito hebraico; porque não se supõe que os pontos, pelo menos segundo aqueles que defendem essa opinião, foram feitos à revelia dos rabinos, mas em conformidade com a analogia da Escritura, o gênero da linguagem sacra e o sentido estabelecido pelo uso entre os judeus). Ainda que (em conformidade com essa última hipótese) os pontos não tenham estado desde o princípio de acordo com a forma, ainda não se pode negar que foram sempre sobre o som e valor ou potência. Do contrário, visto que as vogais são a alma das consoantes, um sentido duvidoso (e de fato não há sentido algum) surgiria constantemente das palavras, a menos que fossem concomitantes com as consoantes. Prideaux observa bem: “Ninguém negará que os pontos e os acentos têm sido desde o princípio relativos ao som e valor, mas somente às marcas e caracteres” (Lectio 12, “De Punctorum Hebraicorum origine”, em Viginti-duae Lectiones [1648], pp. 195, 197). E um pouco mais adiante: “As vogais eram contemporâneas com as consoantes em relação ao som e potência subjetiva, embora as marcas e sinais não fossem então conhecidas” (ibid., p. 197). Aliás, dificilmente se pode pôr em dúvida o fato de que as vogais eram representadas, se não por sua presente forma, por algumas marcas em lugar dos pontos (ou seja, pelas letras ‘vy, como alguns pensam), que, além do mais, são chamados matres leclionis, de modo que o sentido certo e constante do Espírito Santo pudesse ser deduzido (doutro modo, ele dependeria da mera tradição, e os preceitos e memória dos homens seriam facilmente esquecidos e corrompidos). Essa é a opinião do mui erudito Walton: “Pelo uso, e segundo a tradição, pelo auxílio das três letras Vv, chamadas matres lectionis, e pondo no lugar das vogais antes da invenção dos pontos, a leitura e a pronúncia genuínas foram preservadas” (“De Textuum originariorum integritate et auctoritate” [Prolegomena, 7], em Biblia Sacra Polyglotta [1667], 1:44). (4) Os adversários tomam, de forma axiomática, a própria coisa a ser provada - que os pontos são de invenção humana e recente, ao contrário do que os judeus, com grande unanimidade, têm asseverado com grande ênfase (exceto Eli, um levita, que viveu cem anos atrás). Em seus passos seguem muitos homens célebres, gramáticos e também teólogos, protestantes e papistas: , a grande maioria dos teólogos modernos e os Buxtorfs, que aqui dizem tudo antes deles - o pai, em seu Tiberias, sive commentarius Masorethicus triplex (1665), e o filho naquela obra tão pesada (Anticrítica: seu vindiciae veritatis Hebraicae [1653]), na qual se opôs a Arcanii punctatUmis L. Cappelli vindiciae adversus Joh. Buxtorfii (Louis Cappel, em Commentarii et notae criticae in Vetus Testa- mentum [1689], pp. 795-979). Não seria difícil estabelecer essa opinião por meio de vários argumentos, se apropriados aqui. Mas, como essa questão parece ser mais gramatical do que teológica, não estamos dispostos a introduzi-la em nosso campo. Permitimo-nos brevemente afirmar que sempre imaginamos que o modo mais seguro de conservar a autenticidade (authentian) do texto original, seguro e sólido, contra as cavilações de todas as pessoas profanas e hereges de toda espécie, e estabelecer o princípio da fé sobre bases seguras e inamovíveis, é o que sustenta os pontos de serem eles divinos, quer se refiram a Moisés ou a Esdras (o chefe da grande sinagoga). Portanto, os adversários erram por desejar impugnar a autoridade do manuscrito hebraico com base na inovação dos pontos.

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