Pular para o conteúdo principal

Somente Deus deve ser adorado e invocado? Ou é lícito invocar e religiosamente cultuar os santos falecidos?




. Pelo primeiro preceito, “não terás outros deuses diante de mim”, sanciona-se o objeto real do culto religioso. Não só se proíbe o ateísmo (o qual não reconhece nem cultua a Deus) e o politeísmo (que fabrica para si deuses sem conta), mas também toda superstição e idolatria no objeto (pelo qual o que não  Deus estima-se e serve como Deus [G1 4.8], seja uma mera invenção humana, tal como era a maioria dos muitos deuses dos gentios, ou algo realmente existente, porém criado e finito, ao qual o culto religioso de fé, adoração e invocação devidas exclusivamente a Deus é de alguma forma prestado). Os papistas pecam de muitas formas sobre este fato: pelo culto religioso prestado a criaturas, anjos, santos, relíquias e a hóstia da missa, bem como do próprio papa. Assim se fazem culpados não apenas de um tipo de idolatria. E assim devemos disputar acerca do mais importante tópico da religião em controvérsia entre nós.  
A questão não é se os santos  mortos no Senhor devem ser tidos em algum respeito e honra. Não negamos que devam ser por nós honrados em conformidade com o grau de sua excelência, seja pensando neles de forma sublime como servos de Deus felicíssimos e admitidos à companhia do Senhor e cultivando sua memória com gratidão e tema lembrança (Lc 1.48; Mc 14.9), enaltecendo seus conflitos e vitórias, preservando sua doutrina, celebrando e imitando suas virtudes (Hb 12.1), louvando a Deus neles e por eles, e rendendo-lhe ação de graças por os haver suscitado para o bem de sua igreja. Antes, a questão é se devem ser reverenciados com culto religioso propriamente assim chamado. Isto nossos oponentes desejam; nós o negamos. Desde o início, fazemos oposição às calúnias dos papistas que nos acusam de desprezadores e inimigos dos santos, visto que repudiamos o culto a eles prestados (como se se lançasse desdita sobre os santos quando o que pertence exclusivamente a Deus e a Cristo deixamos de lhes atribuir). Ora, ainda que sua memória nos seja mui sagrada, contudo cremos que se deve tomar diligentemente cuidado para que não sejam adorados, fazendo assim injúria a Deus. Não só isso, mas cremos que grave injúria lhes é feita por aqueles que os convertem em ídolos e fazem mau uso dos amigos de Deus, provocando-lhe ciúme. Não hesitamos em asseverar que, se pudessem ver das altitudes da glória o que se faz aqui, não só recusariam o culto que lhes é oferecido, mas também revelariam a mais profunda indignação para com esses adoradores tão insubmissos.  A questão não é sobre a invocação impropriamente assim chamada; ou sobre o tratamento social, civil e amoroso, costumeiro entre os homens vivos (pertencente à segunda tábua). Antes, a questão é sobre a invocação propriamente assim chamada e os atos religiosos de piedade, ordenados na primeira tábua como a principal parte da religião (frequentemente expressos à guisa de sinédoque quanto a todo o culto a Deus [Rm 10.13], no qual nossos adversários incluem o culto universal aos santos). Segundo eles, este culto consiste em parte do juízo interior concernente a eles (porque conhecem nossas necessidades e podem assistir-nos), em parte na confiança neles (porque também desejam agir assim), em parte exterior nos sacrifícios e invocações que lhes são apresentados, nas festas e templos que lhes são consagrados. A questão é se eles devem ser reverenciados, não com aquele respeito de amor e fraternidade exibido aos santos homens de Deus nesta vida em virtude de imitação, mas com um culto sacro de piedade em virtude da religião (como Agostinho o expressa, Reply to Faustus the Manichaean 20.21 [NPNF1, 4:261-263]). Isto negamos; os papistas afirmam. 
 A questão não é se os santos são nossos mediadores e intercessores junto a Deus. Isto pertence a outra questão a ser elaborada quando discutirmos a intercessão de Cristo. Antes, a questão é se devem ser invocados como nossos mediadores e intercessores. Não só como intercessores que podem obter para nós, por suas orações e méritos, as bênçãos a eles solicitadas; mas como aqueles que as outorgam (o que os papistas, embora dissimulem, contudo mantêm, como transparecerá dos exemplos de orações dirigidas aos santos dados abaixo). 
 A questão, pois, se reduz a isto - se o culto de adoração e invocação é devido exclusivamente a Deus, à exclusão de todas as criaturas de toda e qualquer ordem e dignidade; ou se pode ser prestado também aos anjos e aos santos (não militantes, mas triunfantes). Os papistas mantêm o segundo termo da alternativa; nós asseveramos o primeiro. 

Deduz-se a opinião dos papistas não só de sua prática, mas também de sua sanção, pelo decreto do Concílio de Trento concernente à invocação dos santos e à veneração das relíquias: “Prescreve-se no mesmo ensinara invocação dos santos, a honra das relíquias e o uso das imagens; e acusa-se os que ensinam outra coisa de que mantêm uma opinião ímpia” (Sessão 25, Schroeder, pp. 215-217). Belarmino afirma: “Os santos, sejam anjos ou homens, são piedosa e proveitosamente invocados pelos vivos” (“De Sanctorum Beatitudine”, 1.19 Opera [1857], 2:451). O catecismo romano advoga a invocação dos santos pelo uso de vários argumentos, especialmente este: “que eles assiduamente labutam em oração pela salvação dos homens, e Deus nos outorga muitas bênçãos em virtude do mérito deles e por amor a eles” (Catechism o f the Coimcil ofTrent [org. J. A. McHug e C. J. Callan, 1923], p. 371). Perronius diligencia em provara invocação dos santos, dizendo que é não só útil, mas também necessária (Reply of the... Cardinall of Perron to the Answeare of the... King o f Great Britaine [ 1630/1975]). Maldonatus diz “que o erro dos que não oferecem honra religiosa senão a Deus é ímpio e ignorante” (Commentary on the Holy Gospels: Matthew [ 1888], 1:174 sobre Mt 5.34). Daí laborarem tão ardentemente o índices Expurgatórios para destruir tudo quanto (nos livros ou nos escritos dos pais) pertença ao culto exclusivo de Deus. Dos livros de Vatablus apagam “quem crê em Deus será salvo, mas quem não crê perecerá” (Bibliorum sacrorum [ 1584], 2:63 sobre Is 8.32). Do índice de Atanásio apagam “Somente Deus deve ser adorado, e nenhuma criatura”. De Agostinho, destroem “os santos devem ser honrados por imitação, não por adoração” (OfTrue Religion 55 [108] [LCC 6:280; PL 34.169]); e “contra aqueles que dizem: Eu não adoro imagens, mas por elas eu sou atraído para aquilo que devo adorar” (“In Psalmum CXIII* Enarratio: De altera parte”, 3,4 [PL 37.483]). 
Quanto à sua prática, não há ninguém que não saiba que este culto é posto entre as partes principais da religião papista; que os santos são honrados por meio de templos, capelas, altares, imagens, cabeças circundadas por halos luminosos; missas, festas, círios, oferendas e sacrifícios lhes são oferecidos; orações lhes são dirigidas; por eles se fazem juramentos, votos; esperança de salvação e confiança são depositadas neles. E assim são invocados, não só como intercessores, mas também como protetores do mal e concessores tanto de graça quanto de glória. E assim se dirige invocação a todos os santos: “Também vós, hostes de almas felizes no céu; Que as calamidades do presente, do passado e do futuro sejam afastadas de nós” (cf. “Festa Novembris: Ad Vespe- ras”, em Breviarium Romanum [ 1884], 2:817). E aos apóstolos: “Ó bem-aventurados apóstolos, livrai-me do pecado, defendei-me, consolai-me e guiai-me ao reino do céu” (Horíulus Animae [ 1602], pp. 450,451 ). Também: “Busco ser salvo por vós no juízo final”. A Pedro: “O Pastor Pedro, meigo e bom, recebe minhas orações - livra minha alma dos grilhões do pecado; por aquele grande poder que te foi dado, que por tua palavra abres e fechas o portão do céu” (Festa Junii: SS. Petri et Pauli”, em Breviarium Romanum [1884], 2:499). Ao ancião Tiago: “O Tiago,  ´´Apressa-te a apagar minha perversidade, / Fruto do levedo da malícia, / Dando-me o dom da justiça” (Horíulus Animae [ 1602], p. 294). A mesma coisa se poderia facilmente mostrar dos demais apóstolos e santos. Daí transparecer mui claramente que são, não só invocados como intercessores para orarem por nós, mas também como concessores do bem em quem, portanto, se deve depositar esperança e confiança.  Isto é especialmente evidente com respeito à bendita virgem, a quem não só amiúde atribuem nomes e artigos divinos (quando a chamam “Deusa, Senhora, Rainha do Céu, Mãe de Misericórdia, Redentora, Nossa Senhora Onipotente, Refúgio dos Pecadores”), mas também votam adoração tanto interna quanto externa. É possível provar isto mediante exemplos inumeráveis; mesmo o Psalterium Marianum composto por Boaventura (e nunca censurado pela igreja romana, nem mesmo pela obra Expwgatory Indexes) mui claramente o comprova. Nele as atribuições do salmista a Deus são impiamente transferidas à virgem. É só ver o que dizemos em “De Necessaria Secessione Nostra ab Ecclesia Romana” (cm Opera [ 1848], 4:31 -50); e Downame* (A Treatise concerningAntichrist [ 1603], Parte I, 5.1,2, pp. 313-341 ); e especialmente Drelincourt (De l 'honneur qui doit estre rendu à la Saincte etii Bien-heureuse Vierge Marie [ 1643]). 

 Entretanto, para compreender seu significado mais plenamente, devemos observar que o culto em geral entre os papistas é a honra devida de um inferior a um superior. Para ele se requerem três coisas: 
(1) um ato do intelecto pelo qual apreendemos a excelência de alguém. 
(2) Um ato da vontade pelo qual interiormente nos curvamos a ele e desejamos testificar de sua excelência e de nossa sujeição. 
(3) Um ato externo pelo qual curvamos a cabeça ou dobramos os joelhos ou exibimos algum outro sinal de submissão. Daí eles inferem três tipos de adoração ou culto segundo os tipos de excelência. Estes também perfazem três: divino, o qual corresponde ao tipo de culto a que chamam “latria”; humano, que designa as várias dignidades, poderes e graus de homens, ao qual corresponde o ciiltus civilis ou o da observância humana; intermédio, oriundo da graça e glória, e corresponde ao terceiro tipo de culto, ao qual chamam “dulia”. Este é, ou simples (oferecido aos santos c aos anjos), ou “hiperdulia” (prestado à humanidade de Cristo considerada à parte, embora unida à Palavra; e à bendita virgem, o qual [culto] eles afirmam que é religioso). 
 Embora não neguemos que uma diversidade de culto não é impropriamente constituída segundo a diversidade de excelência dos objetos; e prontamente admitimos que, em razão da excelência não-criada e infinita e da criada e finita, pode haver um culto duplo (um religioso, devido exclusivamente a Deus, e o outro civil, dado às criaturas; o qual também pode ser considerado, ou com respeito a este estado terreno, em todos os ofícios de reverência, amor e respeito devido aos homens [embora sejam estranhos à fé]; ou com respeito ao estado celestial, com a qual [referida] honra consideramos a família da fé, sejam seus membros vivos, por uma comunicação de deveres, ou mortos, por amor, louvor, memória, imitação etc.), contudo não cremos que sem sério erro o culto religioso é dividido em vários graus, porém afirmamos que é um só, peculiar unicamente a Deus e incomunicável a todas as criaturas.
 Tampouco a distinção em latria e dulia pode evitar este erro. (1) Ela não repousa sobre fundamento sólido nem na propriedade das palavras, porque a significação de latreias c douleias é confusa nos escritores profanos. Hesychius apresenta latreian por douleian (llesychii Alexandrini Lexicon [1861], 3:16); Glossator, douleia latreia, latreuõ douleuõ. Com base na força da palavra, douleia significa mais do que latreia. A última assinala somente a obediência e o culto de um assalariado (latris ho epi misthõ douleuõn); mas, a primeira, a sujeição de um escravo e servo que se deve inteiramente a seu senhor. Não no uso das Escrituras; pois embora no Novo Testamento a palavra latreias nunca seja usada exceto para o culto devido exclusivamente a Deus, o mesmo é também apresentado pela palavra douleias (como em G14.8; 1 Ts 1.9; Mt 6.24; Rm 12.11; 14.18; Ef 6.7). A Septuaginta aplica latreia ao respeito humano (Dt 28.48; Lv 23.7); não fazer no sábado uma obra servil é denominado latreutonm Paulo sempre se denomina doulon de Cristo, e nunca latreufên. Nem sobre a autoridade dos pais, pois embora Agostinho faça certa distinção entre latreian e douleian, sua intenção não era dividir o culto religioso em dois graus: um pertencente a Deus e o outro aos santos. Antes, sua intenção era apenas distinguir servidão naquilo que é devido exclusivamente a Deus, e o qual, com o propósito de ensinar, ele chama latreian (e em outras partes, a servidão da religião), e naquilo que é devido aos homens, o que peculiarmente ele chama dulia. “Mas a servidão” (, em oposição à latria devida a Deus) “que é devida aos homens, segundo a qual o apóstolo ensina aos escravos que devem ser obedientes a seus senhores, ele costuma chamar por outro nome, a saber dulia” (CG 10.1 [FC 14:116; PL 41.278]). Nossos oponentes são forçados a confessar que a distinção não está escrita (agraphon), e que o hebraico, bem como o grego, usam as palavras indiferentemente (Belarmino, “De Sanctorum Beatitudine”, 1.12 em Opera [1857], 2:441; Vasquez, Commentariorum ac Disputationum in Tertiam Partem, 1, Disp. 93.1 [1631], pp. 625-627). 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Canonicidade e Autoridade A INVESTIGAÇÃO do cânon da Bíblia é uma tentativa de descobrir a verdadeira base de sua autoridade. As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento formam um cânon por causa do fato de que elas são normativas. Pelo termo normativa está implícito que a Bíblia em todas as suas partes é a voz de Deus que fala aos homens. Sua autoridade é inerente, e, como é, não menos do que um edito imperial: "Assim diz o SENHOR". Quando as Escrituras são julgadas como normativas, por causa dos decretos dos concílios eclesiásticos ou de leis ordenadas pelos governos humanos, elas podem ser consideradas como na medida em que a influência humana é capaz de chegar. Mas, em contraposição a tal ideia, as Escrituras têm direito de declarar a vontade de Deus para os concílios eclesiásticos e os governos humanos. Semelhantemente, como a autoridade digna pressupõe a capacidade de executar decretos, a Palavra de Deus não somente proclama os Seus propósitos seguros, mas t...
REVISTA APOLOGÉTICA  A SUPOSTA INQUISIÇÃO PROTESTANTE E O CRIME DOS PAPAS