A IGREJA É REALMENTE INFALÍVEL ?
(2) Com base na natureza das promessas dadas as quais sempre incluem a tácita ou expressa condição de perseverança na fé: “Se vós permanecerdes na dadas à igreja minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21); “Se alguém me ama guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (v. 23). Assim, à igreja de Roma é prometida a bondade de Deus, contanto que ela persevere nessa bondade; do contrário, paira a ameaça de cisão: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado” (Rm 11.22). Portanto, como essas promessas são condicionais, não podem concretizar-se a menos que a condição seja cumprida, e, visto que isso está ausente em vários casos, esse privilégio também necessariamente deve cessar. Confesso que, nos eleitos, Deus opera a própria condição, de modo que estão isentos, pelo menos, do erro fundamental. Porém, nesse aspecto, não se pode dizer isso dos demais
(4)Com base nas varias predições, à luz das quais é nas predições evidente que a igreja do Novo Testamento erraria. Em 2 Tessalonicenses 2, Paulo (falando da apostasia dos últimos dias), diz: “Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando- se como se fosse o próprio Deus” (vv. 3,4). Aqui há tantos argumentos importantes quantas são as palavras. Faz-se menção da “apostasia” que haverá de vir (i.e., da fé) pelo “homem do pecado e filho da perdição”, isto é, um apóstata notável que será o autor dessa tão grande deserção, tanto extremamente perverso em si mesmo quanto o autor do pecado e do erro de outros e, assim, dedicado à eterna perdição e destruição; que se vangloria de ser iníquo (hanomori) e despreza a lei (ou seja, livre de todas as leis); que não será julgado por ninguém e arroga para si a autoridade de julgar a todos; que “se assentará” (i.e., exercerá autoridade e domínio) “no templo de Deus”, ou a igreja, “como se fosse o próprio Deus”, exercendo domínio sobre a consciência, “se exaltando acima de Deus” (ou seja, opondo sua autoridade à de Deus, proibindo o que ele permitiu e permitindo o que ele proibiu), e “acima de tudo que se chama Deus” (i.e., acima dos reis e príncipes, que, com frequência, são assim designados nas Escrituras, enquanto exige deles adoração, submissão e serviço). Ora, se tal e tão grande apostasia deve acontecer na igreja, quem dirá que lhe pertence o dom da infalibilidade?
Essa apostasia não pode significar (1) deserção política do Império Romano, em vez de uma deserção espiritual e eclesiástica da fé em Cristo. Nem as palavras nem os adjetivos pelos quais ela é descrita permitem isso. As palavras não permitem isso porque, quando o Novo Testamento usa a palavra apostasias ou o verbo aphisfêmi, ele indica uma deserção da fé (At 21.21; lTm 4.1). Os adjetivos também não permitem isso porque tratam de uma deserção que está relacionada aos milagres da mentira e toda a sedução da iniquidade (2Ts 2.9,10), que opera o mistério da iniquidade (v. 7), que se manifesta pela eficácia do erro, para que aqueles que são indispostos a crer na verdade, creiam na mentira (v. 11). Por isso, em outras partes, ela é descrita como deserção da fé, por dar atenção aos espíritos sedutores e às doutrinas dos demônios e por fornicação e adultério espirituais (Ap 17.2,4); ou idolatria, pela qual os laços matrimoniais de Deus com a igreja são rompidos. (2) Nem está implícita uma deserção para o Islamismo. Assentar-se no templo de Deus não se harmoniza com Maomé nem com o domínio turco, que reinou tanto pela fraude quanto pela força. Além disso, ele não atacou tanto a consciência, mas o corpo, e não lemos que ele tenha usado esses sinais ou truques mentirosos a fim de instilar sua peçonha. Uma coisa é compelir com a espada na qualidade de tirano, outra é coibir com as chaves, como falso bispo. Uma coisa é abrir a boca do dragão para devorar a presa; a outra, sob a pele de cordeiro e com os chifres de dragão, vomitar blasfêmias. Finalmente, Paulo fala de certo mistério que já havia começado e cuja erupção e franca revelação dilataram o Império Romano (o que o apóstolo entende por “impedir” [ton katechonta]), o que não se pode dizer do Islamismo. (3) Nem está implícita a deserção para o gentilismo. E um mistério como a revelação de algo que se põe no caminho. Ora, nada estava no caminho do gentilismo naquele tempo; aliás, todas as coisas pareciam volver-se para ele (não deve ser chamado um mistério aquilo cuja força externa ou seduções da carne estejam enaltecidas abertamente). Além disso, não se poder dizer que o filho da perdição deve ser ainda revelado, porque o gentilismo já se manifestava suficientemente e prevalecia entre quase todas as nações. Finalmente, afirma-se que irá assentar-se no templo de Deus, o que não se aplica aos gentios. Daí ser evidente que essa apostasia a nada mais pode se referir senão à deserção geral que surgirá na igreja cristã pelo advento do Anticristo. Em outras partes, isso foi plenamente provado em nossa Disputa 7, “De Secessione ab Ecclesia Romana” (Opera [1858], 4:147-77), onde se refuta a ficção de Grotius acerca de Calígula e Simão o Mago, e muitas outras coisas podem ser encontradas sobre esse tema.
Aqui se encaixam muitas outras predições acerca das corrupções e erros que haverão de ser introduzidos na igreja pelos falsos cristos e espíritos sedutores nos últimos tempos, o que os crentes devem evitar: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados cm ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mt 7.15); “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24); “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com seu próprio sangue. Eu sei que, depois de minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (At 20.28-30*); “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demónios” (1 Tm 4.1); “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras” (2Pe 2.1); “Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora” (1 Jo 2.18). Note especialmente o livro de Apocalipse, onde lemos que a grande meretriz babilónica e mãe das fornicações embriaga os reis da terra e os habitantes do mundo com o vinho de fornicação (i.e., a idolatria,caps. 17 e 18). Justamente por isso Deus convoca seu povo para sair do meio dela, para não partilhar de seus pecados e, assim, partilhar também de sua destruição. Visto que, de tudo isso, transparece que erros letais sobrevirão à igreja, todos podem perceber que a infalibilidade não pode ser realmente seu predicado.
A igreja é infalível ou pode errar acerca da fé ?
A questão a respeito da infalibilidade da igreja é a mais agitada de todas que existem entre nós e os romanistas acerca da igreja, e de tão grande importância que o papado parece repousar sobre ela como seu principal suporte. Não foi por outra razão que lutaram tão arduamente pela infalibilidade da igreja, senão para que anexassem esse privilégio à sua, a qual sustentam ser a única igreja genuína. Assim reivindicam para ela juízo supremo e inexplicável (ianypeuthynon, i.e., “não suscetível à crítica humana”) em questões de fé, à qual cada uma e toda pessoa é obrigada a submeter-se sem questionar (abasanistõs) e em cega obediência.
Para que se obtenha corretamente o estabelecimento da questão devemos observar: (1) que a questão não diz ' * respeito simplesmente à igreja invisível dos eleitos ou à universalidade dos crentes, não se ela pode errar no fundamento (o que nossa doutrina da perseverança dos santos prova suficientemente ser de forma caluniosa lançado sobre nós), mas se é possível dizer que ela é tão infalível a ponto de não estar exposta a nenhum erro (o que negamos). (2) A questão não é propriamente a respeito da igreja visível e coletiva dos crentes, mas especialmente a respeito da igreja representativa dos pastores; não propriamente dos primeiros que a fundaram (tais como os apóstolos, os quais todos confessam que eram infalíveis), mas dos subsequentes, os quais preservaram e governaram a igreja depois de fundada. Tampouco a questão se refere a eles separadamente (a respeito dos quais os oponentes não negam que podem errar), mas em conjunto e reunidos em concílio.
Para que se obtenha corretamente o estabelecimento da questão devemos observar: (1) que a questão não diz ' * respeito simplesmente à igreja invisível dos eleitos ou à universalidade dos crentes, não se ela pode errar no fundamento (o que nossa doutrina da perseverança dos santos prova suficientemente ser de forma caluniosa lançado sobre nós), mas se é possível dizer que ela é tão infalível a ponto de não estar exposta a nenhum erro (o que negamos). (2) A questão não é propriamente a respeito da igreja visível e coletiva dos crentes, mas especialmente a respeito da igreja representativa dos pastores; não propriamente dos primeiros que a fundaram (tais como os apóstolos, os quais todos confessam que eram infalíveis), mas dos subsequentes, os quais preservaram e governaram a igreja depois de fundada. Tampouco a questão se refere a eles separadamente (a respeito dos quais os oponentes não negam que podem errar), mas em conjunto e reunidos em concílio.
Assim apresentam a opinião aceita entre eles: “Nossa opinião”, diz ele, “é que a igreja não pode errar absolutamente, nem em coisas absolutamente necessárias, nem em outras que ela nos propõe que sejam feitas e cridas. E quando dizemos que a igreja não pode errar, entendemos isso tanto da universalidade dos crentes, como da universalidade dos bispos, de modo que o sentido da proposição - ‘a igreja não pode errar’ - consiste em que aquilo que todos os crentes são obrigados a crer que é verdade de fé, e, de igual modo, aquilo que todos os bispos são obrigados a ensinar como pertinente à fé é verdadeiro e de fé” (“De Ecclesia Militante”, 3.14 Opera [1857], 2:98). Ora, ainda que esse privilégio seja aqui estendido à multidão universal dos crentes, contudo, em outro lugar (com pouca consistência) ele o restringe aos bispos quando pretende provar que os concílios gerais aprovados não podem errar. “Porque”, dizem eles, “toda a autoridade da igreja formalmente está apenas nos prelados, como a visão de todo o corpo formalmente está somente na cabeça; portanto, é o mesmo que dizer que a igreja não pode errar ao definir matérias de fé e que os bispos não podem errar” (“De Conciliorum Auctoritate”, 2.2 Opera [1857], 2:43). Não obstante, caso se inquira se isso pertence a cada um e a todos os bispos, no mesmo lugar eles ensinam que isso deve ser entendido somente quando eles estão congregados em concílio, “porque os indivíduos separadamente podem errar”. Além disso, se alguém indaga se isso pertence absoluta e simplesmente aos bispos congregados, ele não pretende reconhecer nem isso, a menos que os concílios sejam aprovados pelo papa. “Todos os católicos”, diz ele, “unanimemente ensinam que os concílios gerais, confirmados pelo supremo pontífice, não podem errar” (ibid.). Daí deduzir-se que o fundamento dessa infalibilidade deve ser achado unicamente no papa, “de quem depende sancionar decretos e mudar os já sancionados” (como diz Baronius, Annales Ecclesiasíici, Annus 373.21 [1866], 5:370). E, assim, sob o título de igreja, entendem o papa romano, seu cabeça. Entretanto, que essa infalibilidade do papa não deve ser entendida absolutamente, ensinam , quando dizem : “Os católicos concordam que o papa, mesmo como papa, e com a assembléia de conselheiros, ou com um concílio geral, pode errar em controvérsias de fato, dependendo de informação e testemunho humanos; e que o papa, como um mestre particular, também pode errar em questões universais de direito, seja de fé, seja de prática, e também em questão de ignorância, como, às vezes, sucede a outros mestres” (“De Romano Pontifice”, 4.2 Opera [1856], 1:477). Em outro lugar, porém, ele diz ser provável e que se pode crer piedosamente que, como uma pessoa particular, o papa não pode ser herege. Mais adiante acrescenta: “Os católicos concordam que o papa, com um concílio geral, não pode errar ao estabelecer decretos de fé ou preceitos gerais de prática; e que o papa, quer ele possa ou não ser um herege, não pode de forma alguma definir algo herético a ser crido por toda a igreja” (ibid., 4.6, 1:484). “O supremo pontífice”, diz ele, “quando ensina toda a igreja em coisas pertinentes à fé, de forma alguma pode errar” (ibid., 4.3, proposição 1, 478).
Aqui eles revelam suficientemente sua própria confusão (akatastasian). Não menos que Andrew Duval, diz: “Mesmo que não seja de fé que o supremo pontífice, separado do concílio, desfrute do privilégio de infalibilidade, ainda que aja como pontífice” (o que solidamente prova por várias razões) “contudo isso é absolutamente certo e indubitável” (De Suprema Romani Pontificis, Part 2, Q. 1.8 [1877], p. 105). Os jesuítas, porém, não param aqui. Avançam mais e estendem a infalibilidade do papa não apenas às questões de direito, mas também às questões de fato. Isso é evidente com base nas teses enunciadas no Colégio de Clermont, em 1661, quando se assevera: “Cristo confiou o govemo de sua igreja de tal maneira aos papas, a ponto de conceder-lhes a mesma infalibilidade que ele mesmo possuía, sempre que fala autoritativamente” (cf. “Supplementum Secundi Tomi”, em Caroli D’Argentre, Colletio Judicorum de novis Erroribus [1736], 3:320-23). E assim concluem: “Há, pois, na igreja de Roma, um juiz infalível de controvérsias de fé, mesmo fora de um concílio geral, seja em questões de direito, seja de fato”. A essa afirmação, antes desconhecida na França, o Sínodo Parisiense se opôs corajosamente em seu decreto de 22 de janeiro de 1663 (cf. A. G. Martimont, Le gallicanisme de Bos- suet [1953], pp. 216-36, especialmente p. 235).
No entanto, devemos confessar que nem todos os romanistas sustentam a mesma opinião sobre esse tema. Pois, como não poucos crêem que a igreja pode errar em coisas não reveladas (como Cano, “De Locis theologicis”, 4.4 Opera [1605], pp. 195-205) ou em coisas não pertinentes à fé, ou que são de falo, não de direito (como Alphonsus a Castro, Adversus omnes haereses 6 [1556], pp. 156-201), assim, quanto ao papa, há muitos homens eminentes entre eles (e inclusive até mesmo concílios) por quem essa infalibilidade não é aprovada - aliás, por quem ela é francamente negada. Belarmino reconhece isso quando emite a opinião dos que afirmam que “o papa, como papa, pode ser herege e ensinar heresia, caso defina sem um concílio geral, e que às vezes isso realmente tem ocorrido” (“De Romano Pontifice”, 4.2 Opera [ 1856], 1:477). Ele atribui essa opinião a Nilus (A Briefe Treatise Concerning... the Popes UsurpedPrimacye [ 1560], pp. 9-14), Gerson, Almayno, Adriano VI, bem como os parisienses, que põem a infalibilidade de juízo concernente a questões de fé não no papa, mas na igreja, ou num concílio geral. Os pais do Concílio de Basiléia confessam que “frequentemente encontravam e liam que o papa errava” (“Epistolae et Responsiones Synodales, III”, Mansi 29:249). O comentário afirma: “O papa não deve ser julgado por ninguém, a menos que se descubra ter ele se extraviado da fé” (“Decreti”, Pt. I, Dist. 40.6, Corpus Iuris Canonici [1959], 1:146). Ora, por que se empregaria tal restrição se isso fosse impossível? A mesma opinião foi mantida por Peter d’Ailly, Cardeal de Cambrai (de Auth. Eccles. P. 3, cap. 3+); Nicholas de Cusa (“De Concordantia Catholica”, 1.15 Opera Omnia [1939], 14:79-81) e comumente pela igreja francesa e a Sorbone- expressamente na censura exibida ao rei no ano 1663 sobre a proposição de Amadeus Guimenius e Vemantius, em que a infalibilidade do papa era defendida. Na sexta proposição, a faculdade diz: “Não é um dogma, nem doutrina da faculdade, que o supremo pontífice, sem que o consenso da igreja sendo acrescido, é infalível” (cf. A.G. Martimort, Le gallicartisme de Bossaet [1953], p. 235). Isso a assembléia dos clérigos de França confirmou dois anos antes, decretando entre várias coisas isto também em sua quarta proposição: “O papa tem a autoridade principal em questões de fé, mas suas decisões não são certas sem o consenso da igreja
. Assim os romanistas, entre si, estão divididos em vários partidos sobre esta infalibilidade da igreja. A opinião dos ortodoxos volve a isto: (1) a igreja católica invisível, por mais que se diga ser infalível objetivamente, visto que não pode cometer erro mortal quanto ao fundamento, a ponto de cessar absolutamente de existir (como já ficou provado), no entanto, enquanto estiver na terra, ela está sempre exposta a vários erros, não menos que pecados. (2) A igreja visível, que se congrega em assembléias particulares por todo o mundo, quer ela seja considerada coletivamente ou representativamente, em seus governantes; ou considerada por indivíduos à parte, ou todos juntos em um concílio, não é infalível, mas suscetível de erros mortais, tanto em fé quanto em prática, tanto em questões de direito quanto em questões de fato. O privilégio de isenção de erro (anamaríêsias) não foi dado, nem em qualquer extensão pertence a qualquer igreja ou pessoa após os dias apostólicos.
Aqui eles revelam suficientemente sua própria confusão (akatastasian). Não menos que Andrew Duval, diz: “Mesmo que não seja de fé que o supremo pontífice, separado do concílio, desfrute do privilégio de infalibilidade, ainda que aja como pontífice” (o que solidamente prova por várias razões) “contudo isso é absolutamente certo e indubitável” (De Suprema Romani Pontificis, Part 2, Q. 1.8 [1877], p. 105). Os jesuítas, porém, não param aqui. Avançam mais e estendem a infalibilidade do papa não apenas às questões de direito, mas também às questões de fato. Isso é evidente com base nas teses enunciadas no Colégio de Clermont, em 1661, quando se assevera: “Cristo confiou o govemo de sua igreja de tal maneira aos papas, a ponto de conceder-lhes a mesma infalibilidade que ele mesmo possuía, sempre que fala autoritativamente” (cf. “Supplementum Secundi Tomi”, em Caroli D’Argentre, Colletio Judicorum de novis Erroribus [1736], 3:320-23). E assim concluem: “Há, pois, na igreja de Roma, um juiz infalível de controvérsias de fé, mesmo fora de um concílio geral, seja em questões de direito, seja de fato”. A essa afirmação, antes desconhecida na França, o Sínodo Parisiense se opôs corajosamente em seu decreto de 22 de janeiro de 1663 (cf. A. G. Martimont, Le gallicanisme de Bos- suet [1953], pp. 216-36, especialmente p. 235).
No entanto, devemos confessar que nem todos os romanistas sustentam a mesma opinião sobre esse tema. Pois, como não poucos crêem que a igreja pode errar em coisas não reveladas (como Cano, “De Locis theologicis”, 4.4 Opera [1605], pp. 195-205) ou em coisas não pertinentes à fé, ou que são de falo, não de direito (como Alphonsus a Castro, Adversus omnes haereses 6 [1556], pp. 156-201), assim, quanto ao papa, há muitos homens eminentes entre eles (e inclusive até mesmo concílios) por quem essa infalibilidade não é aprovada - aliás, por quem ela é francamente negada. Belarmino reconhece isso quando emite a opinião dos que afirmam que “o papa, como papa, pode ser herege e ensinar heresia, caso defina sem um concílio geral, e que às vezes isso realmente tem ocorrido” (“De Romano Pontifice”, 4.2 Opera [ 1856], 1:477). Ele atribui essa opinião a Nilus (A Briefe Treatise Concerning... the Popes UsurpedPrimacye [ 1560], pp. 9-14), Gerson, Almayno, Adriano VI, bem como os parisienses, que põem a infalibilidade de juízo concernente a questões de fé não no papa, mas na igreja, ou num concílio geral. Os pais do Concílio de Basiléia confessam que “frequentemente encontravam e liam que o papa errava” (“Epistolae et Responsiones Synodales, III”, Mansi 29:249). O comentário afirma: “O papa não deve ser julgado por ninguém, a menos que se descubra ter ele se extraviado da fé” (“Decreti”, Pt. I, Dist. 40.6, Corpus Iuris Canonici [1959], 1:146). Ora, por que se empregaria tal restrição se isso fosse impossível? A mesma opinião foi mantida por Peter d’Ailly, Cardeal de Cambrai (de Auth. Eccles. P. 3, cap. 3+); Nicholas de Cusa (“De Concordantia Catholica”, 1.15 Opera Omnia [1939], 14:79-81) e comumente pela igreja francesa e a Sorbone- expressamente na censura exibida ao rei no ano 1663 sobre a proposição de Amadeus Guimenius e Vemantius, em que a infalibilidade do papa era defendida. Na sexta proposição, a faculdade diz: “Não é um dogma, nem doutrina da faculdade, que o supremo pontífice, sem que o consenso da igreja sendo acrescido, é infalível” (cf. A.G. Martimort, Le gallicartisme de Bossaet [1953], p. 235). Isso a assembléia dos clérigos de França confirmou dois anos antes, decretando entre várias coisas isto também em sua quarta proposição: “O papa tem a autoridade principal em questões de fé, mas suas decisões não são certas sem o consenso da igreja
. Assim os romanistas, entre si, estão divididos em vários partidos sobre esta infalibilidade da igreja. A opinião dos ortodoxos volve a isto: (1) a igreja católica invisível, por mais que se diga ser infalível objetivamente, visto que não pode cometer erro mortal quanto ao fundamento, a ponto de cessar absolutamente de existir (como já ficou provado), no entanto, enquanto estiver na terra, ela está sempre exposta a vários erros, não menos que pecados. (2) A igreja visível, que se congrega em assembléias particulares por todo o mundo, quer ela seja considerada coletivamente ou representativamente, em seus governantes; ou considerada por indivíduos à parte, ou todos juntos em um concílio, não é infalível, mas suscetível de erros mortais, tanto em fé quanto em prática, tanto em questões de direito quanto em questões de fato. O privilégio de isenção de erro (anamaríêsias) não foi dado, nem em qualquer extensão pertence a qualquer igreja ou pessoa após os dias apostólicos.
As razões contra a Infalibilidade da Igreja são várias.
(1) A primeira é extraída na feição da regeneração. Infalibilidade pressupõe conhecimento perfeito das coisas e exclui toda e qualquer ignorância, que é a mãe do erro. E, no entanto, a nenhuma na imperfeição *igreja ou crente pertence tal perfeição enquanto permanecerem na terra. Aliás, nisto a igreja triunfante difere da militante: que aquela (contemplando a Deus face a face) é absolutamente perfeita e, quanto ao conhecimento e santidade, isenta de todo erro e mancha. Esta, visto que traz consigo os resquícios do pecado e apenas vê através de um espelho, mesmo assim obscuramente, continua exposta: “Porque conhecemos em parte e em parte profetizamos” (ICo 13.9); “E andamos pela fé, não pelo que vemos” (2Co 5.7). Portanto, como não existe ninguém que não peque, assim também não há ninguém que não erre ou que não possa errar. “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas” (SI 19.12*)
(2) Com base na natureza das promessas dadas as quais sempre incluem a tácita ou expressa condição de perseverança na fé: “Se vós permanecerdes na dadas à igreja minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.31); “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21); “Se alguém me ama guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (v. 23). Assim, à igreja de Roma é prometida a bondade de Deus, contanto que ela persevere nessa bondade; do contrário, paira a ameaça de cisão: “Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte, também tu serás cortado” (Rm 11.22). Portanto, como essas promessas são condicionais, não podem concretizar-se a menos que a condição seja cumprida, e, visto que isso está ausente em vários casos, esse privilégio também necessariamente deve cessar. Confesso que, nos eleitos, Deus opera a própria condição, de modo que estão isentos, pelo menos, do erro fundamental. Porém, nesse aspecto, não se pode dizer isso dos demais
( 2)Com base na hipótese de nossos oponentes. A igreja, segundo os romanistas, consiste não apenas dos crentes genuínos, mas também dos incrédulos e réprobos, que podem oponentes, ser destituídos de todas as virtudes internas: fé, esperança e amor (: “De Ecclesia Militante”, 3.2 Opera [1857], 2:74-75) e, como se viu previamente, aos quais não se pode dizer que o privilégio de infalibilidade seja concedido. Em vão, pois, ele adiciona, no mesmo lugar, que crê que todas as virtudes são achadas na igreja, porque expressamente reconhece que isso não lhe pertence necessariamente.
(3)Com base no silencio da Escritura. Pois, se a igreja ‘ , devesse ser infalível, o Espírito Santo, indubitavelmente, teria falado aos crentes em algum lugar sobre isso, como de algo ‘ da maior importância para a confirmação da fé dos piedosos e para guardá-los contra todas as seduções. Senão, pareceria que ele foi omisso em algo da máxima necessidade e que era da máxima importância que a igreja soubesse. Porém em parte alguma se faz menção desse privilégio como tendo sido dado a determinada igreja, pois se mostrará mais adiante que as muitas passagens evocadas por nossos oponentes em prova disso, de fato, não o provam. Longe de afirmar-se que isso foi outorgado à igreja romana (como deveria ser dito por todos os meios, se tal coisa lhe pertencesse), ao contrário Paulo energicamente lhe admoesta do perigo de deserção e de sua iminente queda: “Bem! Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não te poupará” (Rm 11.20,21*). Ora, por que o apóstolo teria dito tal coisa se cresse que o dom da infalibilidade lhe tivesse sido outorgado? E insiste com eles para “que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos, em desacordo com a doutrina que aprendestes; afastai- vos deles” (Rm 16.17). E quem compara a igreja romana de hoje com a primitiva facilmente perceberá a propriedade dessa premonição.
(4)Com base nas varias predições, à luz das quais é nas predições evidente que a igreja do Novo Testamento erraria. Em 2 Tessalonicenses 2, Paulo (falando da apostasia dos últimos dias), diz: “Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando- se como se fosse o próprio Deus” (vv. 3,4). Aqui há tantos argumentos importantes quantas são as palavras. Faz-se menção da “apostasia” que haverá de vir (i.e., da fé) pelo “homem do pecado e filho da perdição”, isto é, um apóstata notável que será o autor dessa tão grande deserção, tanto extremamente perverso em si mesmo quanto o autor do pecado e do erro de outros e, assim, dedicado à eterna perdição e destruição; que se vangloria de ser iníquo (hanomori) e despreza a lei (ou seja, livre de todas as leis); que não será julgado por ninguém e arroga para si a autoridade de julgar a todos; que “se assentará” (i.e., exercerá autoridade e domínio) “no templo de Deus”, ou a igreja, “como se fosse o próprio Deus”, exercendo domínio sobre a consciência, “se exaltando acima de Deus” (ou seja, opondo sua autoridade à de Deus, proibindo o que ele permitiu e permitindo o que ele proibiu), e “acima de tudo que se chama Deus” (i.e., acima dos reis e príncipes, que, com frequência, são assim designados nas Escrituras, enquanto exige deles adoração, submissão e serviço). Ora, se tal e tão grande apostasia deve acontecer na igreja, quem dirá que lhe pertence o dom da infalibilidade?
Essa apostasia não pode significar (1) deserção política do Império Romano, em vez de uma deserção espiritual e eclesiástica da fé em Cristo. Nem as palavras nem os adjetivos pelos quais ela é descrita permitem isso. As palavras não permitem isso porque, quando o Novo Testamento usa a palavra apostasias ou o verbo aphisfêmi, ele indica uma deserção da fé (At 21.21; lTm 4.1). Os adjetivos também não permitem isso porque tratam de uma deserção que está relacionada aos milagres da mentira e toda a sedução da iniquidade (2Ts 2.9,10), que opera o mistério da iniquidade (v. 7), que se manifesta pela eficácia do erro, para que aqueles que são indispostos a crer na verdade, creiam na mentira (v. 11). Por isso, em outras partes, ela é descrita como deserção da fé, por dar atenção aos espíritos sedutores e às doutrinas dos demônios e por fornicação e adultério espirituais (Ap 17.2,4); ou idolatria, pela qual os laços matrimoniais de Deus com a igreja são rompidos. (2) Nem está implícita uma deserção para o Islamismo. Assentar-se no templo de Deus não se harmoniza com Maomé nem com o domínio turco, que reinou tanto pela fraude quanto pela força. Além disso, ele não atacou tanto a consciência, mas o corpo, e não lemos que ele tenha usado esses sinais ou truques mentirosos a fim de instilar sua peçonha. Uma coisa é compelir com a espada na qualidade de tirano, outra é coibir com as chaves, como falso bispo. Uma coisa é abrir a boca do dragão para devorar a presa; a outra, sob a pele de cordeiro e com os chifres de dragão, vomitar blasfêmias. Finalmente, Paulo fala de certo mistério que já havia começado e cuja erupção e franca revelação dilataram o Império Romano (o que o apóstolo entende por “impedir” [ton katechonta]), o que não se pode dizer do Islamismo. (3) Nem está implícita a deserção para o gentilismo. E um mistério como a revelação de algo que se põe no caminho. Ora, nada estava no caminho do gentilismo naquele tempo; aliás, todas as coisas pareciam volver-se para ele (não deve ser chamado um mistério aquilo cuja força externa ou seduções da carne estejam enaltecidas abertamente). Além disso, não se poder dizer que o filho da perdição deve ser ainda revelado, porque o gentilismo já se manifestava suficientemente e prevalecia entre quase todas as nações. Finalmente, afirma-se que irá assentar-se no templo de Deus, o que não se aplica aos gentios. Daí ser evidente que essa apostasia a nada mais pode se referir senão à deserção geral que surgirá na igreja cristã pelo advento do Anticristo. Em outras partes, isso foi plenamente provado em nossa Disputa 7, “De Secessione ab Ecclesia Romana” (Opera [1858], 4:147-77), onde se refuta a ficção de Grotius acerca de Calígula e Simão o Mago, e muitas outras coisas podem ser encontradas sobre esse tema.
Aqui se encaixam muitas outras predições acerca das corrupções e erros que haverão de ser introduzidos na igreja pelos falsos cristos e espíritos sedutores nos últimos tempos, o que os crentes devem evitar: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados cm ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mt 7.15); “porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24); “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com seu próprio sangue. Eu sei que, depois de minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (At 20.28-30*); “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demónios” (1 Tm 4.1); “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras” (2Pe 2.1); “Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora” (1 Jo 2.18). Note especialmente o livro de Apocalipse, onde lemos que a grande meretriz babilónica e mãe das fornicações embriaga os reis da terra e os habitantes do mundo com o vinho de fornicação (i.e., a idolatria,caps. 17 e 18). Justamente por isso Deus convoca seu povo para sair do meio dela, para não partilhar de seus pecados e, assim, partilhar também de sua destruição. Visto que, de tudo isso, transparece que erros letais sobrevirão à igreja, todos podem perceber que a infalibilidade não pode ser realmente seu predicado.
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