ONDE ESTAVAM OS PROTESTANTES ANTES DA REFORMA?
No entanto, antes de responder à questão, é preciso Demonstra-se bem o absurdo e a desonestidade da exigência. Primeiro, ela pressupõe uma falsa hipótese, que e o primeiro erro (proexigencia pseudos) de nossos oponentes. Uma vez sendo isso negado e subvertido, tudo mais que se edifica sobre ele necessariamente fracassará de igual maneira - a saber, que a verdadeira igreja deve sempre existir no mundo com esplendor perpétuo. Visto que, na questão precedente, já provamos que tal coisa é falsa e evidentemente há tempos, como o de Elias, em que a igreja jaz oculta e é subtraída da vista humana, em vão nos pedem que mostremos onde nossa igreja estava. Pois ela poderia jazer oculta e sem qualquer esplendor e proeminência.
Segundo, falsamente argumentam a partir da ignorância de uma coisa para sua negação, como se fosse necessário que uma coisa não exista só porque ela é desconhecida. E, no entanto, a veracidade de uma coisa deve ser medida com base em si própria, e não em nosso conhecimento ou ignorância. Pois quem duvida ser possível que uma coisa exista, mesmo que esteja oculta de mim e de outros, seja porque é secreta e oculta, ou porque não atentamos diligentemente para sua investigação? Essa inferência anuviou outrora o espírito de Elias que, posto que não sabia onde estava a igreja de seu tempo, nem quem eram seus mestres, cria estar sozinho, porque os demais eram desconhecidos dele (1 Rs 19.10; Rm 11.4). Porém o Senhor lhe ensinou que tal raciocínio era falho, quando disse: “Também reservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que o não beijou” (lR s 19.18). Se, pois, a igreja israelita podia assim jazer oculta, de modo que Elias a ignorasse, quem duvida que aconteceu a mesma coisa no tempo de nossos ancestrais?
Terceiro, ainda arrazoam erroneamente a partir da ignorância do lugar para a negação da coisa. Pois embora o lugar de uma coisa me possa ser desconhecido, não segue que a própria coisa não exista absolutamente. Ainda que eu não possa saber onde se encontram os tesouros marítimos, nem por isso devem ser negados que estão lá. Assim, uma coisa é saber que há uma igreja verdadeira, outra é saber onde ela se encontra. Podemos estar persuadidos da primeira, ainda que nada saibamos com certeza sobre a segunda.
Quarto, a questão é de história, não de fé, cuja solução, pois, não é necessária à salvação. Para o cristão, em particular, é suficiente saber e estar persuadido de que essa assembléia em cuja relação ele vive é a verdadeira igreja, visto que nela ele tem o que é plenamente suficiente para sua salvação, e nada que a impeça, embora nada possa saber sobre onde estava a igreja em tempos passados. Pois embora seja um espetáculo agradabilíssimo contemplar a face de toda a igreja, em todos os tempos, no entanto ninguém pode fazer isso (nem é isso necessário à nossa fé e salvação; e tal coisa nem pode ser averiguada, a não ser por aqueles que estão mais bem familiarizados com a história; nem estas coisas podem ser descobertas de algum outro modo senão pela fé histórica; nem qualquer discussão será instituída acerca destas coisas no dia do juízo, de modo que nossa salvação não será posta em perigo pela ignorância delas). Imaginemos um homem na infância levado à extrema Thule [possivelmente Noruega] pela força de uma tempestade; no entanto, tendo conhecimento da oração e da religião genuína, mas totalmente ignorante da história. Nem por isso ele será menos salvo, só porque não sabe onde estava a igreja antes dele? Imaginemos uma cidade saqueada por piratas, pais e mães e avós sendo levados para o cativeiro, as crianças permanecendo sozinhas, as quais pelos livros e traços de instrução retêm a mesma piedade - quem as excluiria da igreja, ainda que nada saibam sobre essa questão?
Não nos preocupa saber onde nossa igreja estava no tempo dos pais, mais do que onde ela estava no tempo da perseguição de Décio (a qual, ainda que parecesse totalmente extinta, não obstante ressurgiu, das cinzas, à vida). É preciso que se mantenha isso como certo - que a igreja existia e reviveu. Deus conhecia o lugar; ele é aquele que demarca sua própria igreja; ele provê lugares e apoio; quando os homens estão ausentes, ele os substitui por corvos; quando falta pão, ele alimenta com sua Palavra; ele conhece quem lhe pertence; já os timbrou com seu selo sacro. Isso se pode dizer com mais propriedade em razão de que certamente sabemos que sobrevirão na igreja cristã tais tempos e males, bem como mancharão o nome cristão com terrível apostasia, porém não a destruirão. Razão porque o livro do Apocalipse foi escrito e deixado à posteridade, para a singular consolação da igreja, para que em tão grandes trevas tivesse um guia seguro.
Não nos preocupa saber onde nossa igreja estava no tempo dos pais, mais do que onde ela estava no tempo da perseguição de Décio (a qual, ainda que parecesse totalmente extinta, não obstante ressurgiu, das cinzas, à vida). É preciso que se mantenha isso como certo - que a igreja existia e reviveu. Deus conhecia o lugar; ele é aquele que demarca sua própria igreja; ele provê lugares e apoio; quando os homens estão ausentes, ele os substitui por corvos; quando falta pão, ele alimenta com sua Palavra; ele conhece quem lhe pertence; já os timbrou com seu selo sacro. Isso se pode dizer com mais propriedade em razão de que certamente sabemos que sobrevirão na igreja cristã tais tempos e males, bem como mancharão o nome cristão com terrível apostasia, porém não a destruirão. Razão porque o livro do Apocalipse foi escrito e deixado à posteridade, para a singular consolação da igreja, para que em tão grandes trevas tivesse um guia seguro.
Quinto, a injustiça da exigência transparece também e claramente nisto - que insidiosamente corrompem os escritos dos pais e tudo fazem para destruir tudo quanto resta de simplicidade e extinguir toda a memória da antiguidade tanto quanto são capazes (homens de extrema vileza). Desejam volver contra nós as armas da verdade que eles mesmos têm pisoteado, coberto e extirpado, apenas porque não podemos exibi-las. Aqueles que perseguiram os piedosos com fogo e espada agora se divertem com eles, evidentemente como os judeus que, ferindo Cristo com varas, diziam: “Profetiza quem te feriu”. Assim desejam que profetizemos e apresentemos as razões para um tempo prévio.
Sexto, se nossos oponentes querem que respondamos à indagação proposta, são igualmente obrigados a responder-nos - onde estava sua igreja no tempo de Cristo e dos apóstolos, quando nada acerca da transubstanciação, do sacrifício da missa, da invocação dos santos e do culto às imagens, purgatório, indulgências, papa e sua autoridade, bem como outros erros teóricos e práticos
prevaleciam, como ainda prevalecem entre os crentes? Que nos mostrem onde então estava esse magnificente aparato de templos e cerimônias que corrompeu completamente o Cristianismo e converteu o culto divino em mero exibicionismo. Onde estava o papado nos primeiros seis séculos de maior pureza (ou, pelo menos, menos impureza) do Cristianismo? Pois ainda que vários erros tenham começado gradativamente a introduzir-se sorrateiramente na igreja, contudo é certo que erros muito mais numerosos foram introduzidos nos séculos seguintes ou receberam força: o culto às imagens, a transubstanciação, a comunhão sob uma só espécie, a infalibilidade e monarquia do papa, o uso de um idioma estrangeiro no serviço sacro etc. Que nos mostrem onde estava a igreja no século 10ç (o qual Baronius chama de era “do ferro"), quando houve mais de cinquenta papas sucedendo uns aos outros, não tanto apostólicos (apostolici) quanto “apóstatas” (apostatici) e “apostáticos” (apostactici) (segundo Genebrard).
prevaleciam, como ainda prevalecem entre os crentes? Que nos mostrem onde então estava esse magnificente aparato de templos e cerimônias que corrompeu completamente o Cristianismo e converteu o culto divino em mero exibicionismo. Onde estava o papado nos primeiros seis séculos de maior pureza (ou, pelo menos, menos impureza) do Cristianismo? Pois ainda que vários erros tenham começado gradativamente a introduzir-se sorrateiramente na igreja, contudo é certo que erros muito mais numerosos foram introduzidos nos séculos seguintes ou receberam força: o culto às imagens, a transubstanciação, a comunhão sob uma só espécie, a infalibilidade e monarquia do papa, o uso de um idioma estrangeiro no serviço sacro etc. Que nos mostrem onde estava a igreja no século 10ç (o qual Baronius chama de era “do ferro"), quando houve mais de cinquenta papas sucedendo uns aos outros, não tanto apostólicos (apostolici) quanto “apóstatas” (apostatici) e “apostáticos” (apostactici) (segundo Genebrard).
Não obstante , Para pareça que estamos nos desvencilhando da questão (como se nos fosse insolúvel [alytos]), (1) à fé podemos responder diretamente que a questão apresenta uma ' dupla relação ou tem referência a quatro coisas: (1) a doutrina e a fé dos eleitos, os quais constituem a igreja; (2) suas pessoas e condições; (3) o lugar onde viviam; (4) a forma de governo sob a qual viviam e o culto externo que mantinham. Quanto à primeira, se tratamos da fé cristã, dizemos que a substância das coisas que devem ser cridas e feitas para a salvação sempre esteve nas Escrituras, no Credo Apostólico, na lei de Deus e na Oração do Senhor, selada pelos sacramentos, que, por especial providência, ele quis preservar na igreja para o sustento dos eleitos, ainda que essa doutrina fosse, com frequência, mesclada com vários erros. De modo que aqui devemos acuradamente distinguir a substância da fé dos acidentes corrompidos na doutrina e no culto, em cujo meio Deus sabia como preservar seus eleitos naquela pureza que era necessária para a salvação, até o tempo da Reforma.
Segundo, se tratamos das próprias pessoas (i.e., da igreja propriamente assim chamada, visto que indicam o corpo místico de Cristo, constituído exclusivamente dos eleitos), dizemos que ela subsistiu em todos os eleitos que viveram desde o tempo dos apóstolos, que em todos os tempos creram em Cristo segundo a verdade do evangelho publicamente pregada, os quais separaram a doutrina salvadora no ministério público dos erros que reiterada e furtivamente se introduziram. Já não estamos obrigados a mostrar-lhes estes, como a Elias não foram mostrados os sete mil homens que não haviam se encurvado ante Baal, embora realmente vivessem em Israel.
A condição dessa igreja era miserável e aflitiva, seja porque era obscura e destituída de esplendor (que foi prefigurada pela mulher fugindo para o deserto [Ap 12.6], pequena em número e reduzida a grande pobreza, designada
pelas “duas testemunhas” [Ap 11.3], visto que eram bem poucos quando comparada com a multidão dos que vadiavam em erro), seja porque ela, em parte, foi corrompida, participando, em certa medida, dos erros do papado, embora sempre retivesse o fundamento da salvação e assim separada do papado (se não positivamente, contudo negativamente; se não localmente, contudo em fé e religião), desaprovando seus erros e se lhe opondo o quanto podiam.
Segundo, se tratamos das próprias pessoas (i.e., da igreja propriamente assim chamada, visto que indicam o corpo místico de Cristo, constituído exclusivamente dos eleitos), dizemos que ela subsistiu em todos os eleitos que viveram desde o tempo dos apóstolos, que em todos os tempos creram em Cristo segundo a verdade do evangelho publicamente pregada, os quais separaram a doutrina salvadora no ministério público dos erros que reiterada e furtivamente se introduziram. Já não estamos obrigados a mostrar-lhes estes, como a Elias não foram mostrados os sete mil homens que não haviam se encurvado ante Baal, embora realmente vivessem em Israel.
A condição dessa igreja era miserável e aflitiva, seja porque era obscura e destituída de esplendor (que foi prefigurada pela mulher fugindo para o deserto [Ap 12.6], pequena em número e reduzida a grande pobreza, designada
pelas “duas testemunhas” [Ap 11.3], visto que eram bem poucos quando comparada com a multidão dos que vadiavam em erro), seja porque ela, em parte, foi corrompida, participando, em certa medida, dos erros do papado, embora sempre retivesse o fundamento da salvação e assim separada do papado (se não positivamente, contudo negativamente; se não localmente, contudo em fé e religião), desaprovando seus erros e se lhe opondo o quanto podiam.
Terceiro, quanto ao lugar, a questão pode ser entendida ' * de duas maneiras. Pode ser entendida definidamente acerca da sede certa e constante da igreja (como Roma) e naquela série contínua de bispos ou pastores que os romanistas pretendem. Porém isso é falso, (a) A igreja do Novo Testamento não está atada a nenhum lugar como no Antigo, mas é ambulante e migra de lugar a lugar, como transparece do exemplo das igrejas asiáticas, mencionadas em Apocalipse 2 e 3, e das muitas outras que têm perecido, (b) Não está obrigada a ter aquela sucessão, visto que esta falha totalmente em relação às próprias igrejas ou é mudada numa sucessão de lobos que devoram as ovelhas (At 20.29), ou que impiamente domina sobre ela (2Ts 2.3,4). Ou pode ser entendida indefinidamente em relação a uma sede e domicílio em geral, que, segundo a dispensação divina, tem obtido em vários lugares, ora aqui, e então ali. Nesse sentido, dizemos que a verdadeira igreja antes de Lutero e Zuínglio já existia em várias assembléias separadas da igreja romana, muitas das quais, é verdade, existiram no oriente e no ocidente. A arrogância (authadeia) e tirania do bispo romano, na corrupção da doutrina, bem como na depravação do culto e inovações da ordem e governo da igreja, tanto os desagradava que não só nunca quiseram se submeter a ele, mas também não hesitaram em opor-se abertamente e esquivar-se dele. Sabe-se bem que os valdenses e albigenses particularmente os representavam. Uma vez que, ou se fiavam na autoridade dos príncipes ou confiavam em seus próprios membros, estes podiam manter assembléias públicas e assim tomaram-se a igreja visível e conspícua: como na Boêmia, em certas partes da Inglaterra e nas províncias ao sul da França - Aquitania, Occitania (Languedoc) - e na Narbonne, região da França, até os Alpes. Mais tarde, porém, os príncipes, excitados pela fúria e artes do bispo romano e fascinados por um zelo cego, perseguiram esses crentes piedosos com armas a fim de gratificá-lo, os expulsaram (sofreram muitas derrotas e foram tratados com muita crueldade) de suas cidades e habitações naturais e tudo fizeram para destruí-los a fogo e a espada. Então a aparência externa da parte da igreja, de fato, ficou tão obscura que era como se estivesse extinta. Entretanto, os monumentos da história testificam que um remanescente deles ainda sobrevivia (ainda que dispersos e espalhados) em vários lugares, especialmente na floresta pirinéia, nos vales fechados nas bases dos Alpes. Até mesmo esse simples fato seria suficiente para rebater a injusta incriminação de nossos oponentes - de que não podemos exibir onde estava nossa igreja antes de Lutero - visto ser evidente que aqueles cristãos mais puros que sustentam a mesma fé conosco em essência existiam em vários lugares e tinham suas assembléias segregadas, embora um tanto veladas. E, visto que os historiadores não fazem nenhuma menção de sua cisão da igreja romana, é razoável inferir que nunca mantiveram qualquer comunhão com ela, mas que sempre viveram separados dela e preservaram pura e incontaminada a verdade que lhes foi confiada pela proclamação do evangelho.
Porém acrescentamos que nossa igreja estava no próprio papado, visto que Deus sempre preservou para si, no meio da Babilônia, um remanescente segundo a eleição da graça (ou seja, crentes genuínos que, gemendo sob aquele cativeiro, aspiravam pelo livramento espiritual; dos quais lemos ter vivido no papado, não quanto à comunhão com ele [visto que reprovavam e se esquivavam de seus erros e superstições], mas de passagem ou como inquilinos, porque viviam no seio da igreja papal, não todos juntos, mas espalhados pelos reinos, províncias, cidades e famílias, nos quais Deus preservou seu povo).
Porém acrescentamos que nossa igreja estava no próprio papado, visto que Deus sempre preservou para si, no meio da Babilônia, um remanescente segundo a eleição da graça (ou seja, crentes genuínos que, gemendo sob aquele cativeiro, aspiravam pelo livramento espiritual; dos quais lemos ter vivido no papado, não quanto à comunhão com ele [visto que reprovavam e se esquivavam de seus erros e superstições], mas de passagem ou como inquilinos, porque viviam no seio da igreja papal, não todos juntos, mas espalhados pelos reinos, províncias, cidades e famílias, nos quais Deus preservou seu povo).
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