A versão Septuaginta do Antigo Testamento é autêntica?
Entre as versões gregas do Antigo Testamento, a dos setenta intérpretes merecidamente mantém o primeiro lugar entre nós. Foi tão altamente valorizada pelos judeus e cristãos do oriente e do ocidente que, a princípio, foi usada publicamente nas sinagogas e, mais tarde (ou versões feitas dela), foi usada somente em suas igrejas. A partir dessa versão, todas as traduções para outros idiomas (que antigamente eram aprovadas pela igreja cristã) foram executadas (com exceção da Siríaca): a Árabe, a Armênia, a Etíope, a Ilírica, a Gótica e a versão Latina em uso antes do tempo de Jerônimo. Até hoje, as igrejas gregas e a maioria das outras igrejas orientais, reconhecem somente a ela.
A questão não diz respeito ao tempo ou à maneira como essa versão foi feita, se sob os auspícios e às custas de Ptolomeu Filadelfo, ou pelos judeus para própria conveniência (como Scaliger, Epistolae 11 [14] [1627], pp. 100-101), ou pelos setenta intérpretes que, encerrados em celas separadas, realizaram toda a obra cm 72 dias, e, dc fato, com a mais exata concordância (embora cada um deles empreendesse e completasse toda a obra separadamente dos demais); e outras coisas do mesmo gênero são relatadas sobre esses intérpretes, tanto por Aristeas (que fez um prolixo relato das circunstâncias) como por Joséfo e pelos cristãos (que, uma vez que usavam essa versão, deram positivo ouvido a essas narrativas, lançando mão ardorosamente dc tudo quanto estabelecia sua autoridade). Essas questões são meramente históricas e por isso não pertencem ao nosso propósito. Não obstante, se formos convocados a expressar nossa opinião, daremos nosso cordial assentimento àqueles eruditos que consideram todas essas coisas como dignas de pouco crédito. Mesmo em seu tempo, Jerônimo começou a exibir e a atacar a genuinidade das narrativas, e isso tem sido feito mais clara e fortemente pelos escritores mais modernos (Vives, Saint Augustine, o f the Citie o f God ... with ... comments o f Lodovicus Vives 18.42 [1620], pp. 687-88, Scaliger, em Thesaitnis temporum Eusebii [1606], Drusius, Casaubon, Wouverus, Ussher, Rivet, Heinsius, entre outros). Mas falamos aqui somente de sua autoridade (i.e., se é possível dar-lhe tal autoridade na qualidade de ser inspirada por Deus [theopneustos] e autêntica).
Embora os papistas não falem todos no mesmo tom, a maioria deles concorda que essa versão foi divinamente inspirada e, portanto, alcança com propriedade a autoridade divina; e que os tradutores devem ser considerados não como intérpretes, mas como profetas que, para que não errassem, tiveram o auxílio do Espírito Santo de uma forma especial, como diz Belarmino (VD 2.6, pp. 68-71). Baile, Stapleton, R Carthusia (de Translat. Bibli. c. iv.5+) e Johannes D’Espeires (“Tractatus 2: De Versione Septuaginta Intcrpretum”, Disp. I, Dubium 10, Auctoritas Scripturae Sacrae Hebrai- ce, Graeca et Latine [1651], pp. 183-86), todos concordam com ele, e especialmente John Morinus, que tudo faz para estabelecer a autenticidade (au- thentiari) dessa versão (Exercitationis ecclesiasticae et Biblicae 7.4+ [1669]). Entre nossos estudiosos, o mais erudito deles, Isaac Vossius, tenta construir a mesma idéia mediante uma série de argumentos num tratado especial (cf. De Septuaginta Interpretibus [1661-63]).
Embora não neguemos que ela seja de grande autoridade na igreja, consideramos tal autoridade humana, não divina, visto que o que foi feito pelos tradutores foi por mero esforço humano, não por profetas e homens a quem Deus inspirou (theopneustois) pela inspiração direta do Espírito Santo.
Portanto, não se deve indagar se ela tem alguma autoridade na igreja. Admitimos que ela é de grande peso e deve ser corretamente preferida a outras traduções. (1) E a mais antiga de todas, feita há mais de 2 mil anos e, por isso, deve ser honrada por seus cabelos grisalhos. (2) Era lida em público e privativamente pelos judeus sempre que eram dispersos. (3) Os apóstolos e evangelistas a usaram, citando muitas passagens veterotestamentárias e a consagraram, por assim dizer, por meio de seus escritos. (4) Os apóstolos a deram à igreja quando, por meio dela, conquistaram o mundo para Cristo. Assim a igreja gentílica nasceu, cresceu e se nutriu dela. (5) As igrejas gregas e latinas a defenderam como a versão autorizada durante seis séculos. (6) Os pais e os escritores eclesiásticos antigos a explanaram mediante comentários, a apresentaram ao povo na forma de homilias e por meio dela sufocaram as heresias nascentes. Em seus concílios, dela extraíram cânones para a regulamentação da fé e da prática. Antes, a questão é se ela tem uma autoridade tal que deva ser considerada autêntica e em pé de igualdade com as fontes. Nossos adversários sustentam isso; nós negamos.
As razões são: (1) Ela foi feita mediante estudo e labor humanos, não por homens divinamente inspirados (theopneustois). Seus autores eram intérpretes, não profetas (que cessaram depois de Malaquias, chamado pelos judeus o selo dos profetas). Desse fato c também evidente, como diz Aristeas: “os intérpretes conferiam suas versões, discutindo e comparando notas sobre tudo, até que, por fim, chegassem todos a um acordo” (Letter o f Aristeas 302 [trad. H. St. J. Thackeray, 1904], p. 52). Ora, se eles se consultavam, não profetizavam. Pois os escritores sacros nunca se consultavam, discutindo tudo aquilo que pudessem escrever. Porém, quando instruídos pelo Espírito Santo, eles confiavam todas as coisas à escrita sem qualquer discussão ou delonga. (2) Se escreveram sob a influência do Espírito Santo, tal número seria supérfluo (sendo suficiente apenas um). Não teria havido necessidade de homens de grande erudição, habilitados no hebraico e no grego, se ela fosse elaborada sem o estudo e o auxílio humanos. (3) Em muitos casos, ela varia das fontes em palavras e coisas e contém várias interpretações (parermêneias) falsas e discrepâncias, como já foi demonstrado pelos manipuladores desse argumento. Por isso Morinus se viu forçado pelo menos a confessar: “Não se deve atribuir a essa versão mais autoridade que àquelas feitas pela diligência humana” (Exercitationis eccle- siasticae et Biblicae 7.4+ [1669]). (4) Não é considerada pura agora, mas grandemente corrompida e interpolada. Temos apenas suas ruínas e destroços (leipsana), de modo que dificilmente pode chamar-se a versão da Septuaginta (como o navio Argo que foi tantas vezes reparado, a ponto de não ser o mesmo, nem ainda outro). Jerônimo faz freqüentes alusões a esse fato (Letter 112 [89], “Ad Augustinum” [PL 22.928-29]; ‘Praefatio ... in librum Paralipomenon Praefatio’, de “Hieronymi Prologus Galeatus”, em Biblia Sacra Vulgatae Editionis Sixti V ... et Clementis VIII [1865], p. xlix, e ‘... in Esdram et Nehe- miam Praefatio’, de ibid., p. 1). Assim é geralmente sustentado pelos eruditos que ela provém da versão koinê, que pode ser chamada loukianis, como testifica Jerônimo (Letter 106 [135], “Ad Suniam et Fetallam” [PL 22.838]). Fontes de VII. Os apóstolos usaram essa versão não porque criam ser ela solução. autêntica e divina, mas porque ela era então a mais usada e mais universalmente aceita, e porque (onde se preservava um respeito pelo sentido e verdade) não se dispunham a temerariamente disputar ou a criar dúvida na mente dos mais fracos, mas por santa prudência deixaram intocado o que, caso fosse mudado, traria escândalo, especialmente quando ela correspondesse a seu propósito. Entretanto, fizeram isso de tal maneira que, às vezes, quando parecia necessário, quando a versão da Septuaginta parecia não apenas inadequada, mas inverídica, preferiam a fonte (como diz Jerônimo, Jerome 's Apologv ... Againsí the Books oj Rufinus 2.34 [NPNF2, 3:517]). Isso pode facilmente ser deduzido de uma comparação de Mateus 2.15 com Oséias 11.1; João 19.37 com Zacarias 12.10; Jeremias 31.15 com Mateus 2.18; Isaías 25.8 com 1 Coríntios 15.54.
Se alguns dos pais enalteceram essa versão e defenderam sua autenticidade (não podemos negar que isso foi feito por Irineu, Clemente de Alexandria, Agostinho, entre outros), agiram assim mais pelo impulso do sentimento que do conhecimento, sendo quase inteiramente ignorantes da língua hebraica. Não somos obrigados a adotar sua opinião, visto que, justamente como os setenta, eram passíveis de erros e paixões humanos. Orígenes e Jerônimo, porém, os mais eruditos dentre eles, sustentaram uma opinião inteiramente diferente, ensinando que eram intérpretes, não inspirados.
Embora a igreja use essa versão por muitos anos, não devemos inferir que ela seja detentora de autenticidade e divina, mas apenas que ela desfruta de grande estima. Ordinariamente, o uso não poderia ter interferido na liberdade de acesso à fonte enquanto não fosse necessário.
As grandes discrepâncias quanto a cronologia entre o texto hebraico e a versão da Septuaginta (contando os manuscritos hebraicos apenas 1.656 anos da criação ao dilúvio, enquanto que a Septuaginta estima 2.242) não provam que a versão seja autêntica, mas, antes, que ela é corrompida. O consenso dos códices hebraicos favorece o cálculo hebraico (não havendo nenhuma variação neles sobre esse assunto). (2) Assim também a concordância (symphõnia) de todas as versões antigas: a Caldaica, a Siríaca, a Samaritana, a Árabe e a Latina, as quais variam da Septuaginta aqui e seguem o texto hebraico. (3) Também há o erro manifesto da versão grega em estender a vida de Matusalém pelo menos 14 anos além do dilúvio (se não 20) e, contudo, não diz que ele estava na arca. Pois se Matusalém gerou a Lameque quando tinha 165 anos (como dizem as admiráveis notas na edição de Wilson da versão grega. Bíblia sacra polyglotta [1657], 1:20, sobre Gn 5.25), Matusalém deve ter vivido muitos anos depois do dilúvio. E, se algumas cópias gregas neste caso seguiram o hebraico (como diz Vassius sobre os códices africano e alexandrino), essas poucas (que sem dúvida foram corrigidas do hebraico) não devem ser opostas às inumeráveis cópias que a igreja e os pais seguiram, nas quais existe essa contagem. Os argumentos em prol da contagem grega são facilmente respondidos. Primeiro, quanto aos anos de puberdade - estes foram referidos pelos gregos a duzentos anos (uma proporção maior à totalidade da vida), pelos judeus a cem anos. Visto que o próprio Walton (embora defenda a opinião dc Vossius) reconhece a fraqueza desse argumento, e diz: “são conjcturas tolas, indignas de um homem de mente sã” (“Dc Versionibus Graecis” [Prolegomena 9], em Biblia sacra polyglotta [1657], 1:68), e presume-se também que os anos de puberdade (ou o poder de geração \j?aidogonian]) necessariamente seguem a quádrupla ou quíntupla proporção da totalidade da vida (visto que devem corresponder ao vigor do corpo), é absurdo que naquelas primeiras épocas em que seu corpo era muito vigoroso, a puberdade seria adiada para duzentos anos. É claramente evidente que, nos casos mencionados por Moisés, a proporção da puberdade para a vida não era observada: Noé gerou com seus quinhentos anos; Maalalel, com seus sessenta e cinco; Lameque, com seus cento e vinte; Cainã, com seus setenta; Enoque, com seus sessenta e cinco. Os poderes de geração dos patriarcas pós-diluvianos (embora tivessem vida tão mais curta) são pelos gregos quase igualados aos do princípio, e são reportados em sua maior parte a cento e trinta anos. Segundo, o que evocam para provar a autenticidade (authentian) do texto grego (porque nenhuma corrupção do gênero poderia ocorrer por acaso, o que, não obstante, tem acontecido, nem por desígnio, porque nenhuma boa razão se pode apresentar para agir assim) constitui provas muito fortes da integridade do códice hebraico - ao que (outras coisas sendo iguais) a prerrogativa geralmente não é negada. Ora, embora essa corrupção não existisse na versão original, porventura não poderia surgir do descuido ou da ignorância dos escribas (ablepsia)? Além disso, um pretexto suficiente e plausível é o de que, na questão de tempo, desejaram gratificar os egípcios (porque o texto hebraico é muito mais oposto à antigüidade do Egito do que o grego). Embora Walton rejeite essa razão, Vossius a considera de grande importância, e por essa mesma causa prefere o texto grego ao hebraico, porque aquele concorda mais com a antigüidade dos egípcios do que este. Pela adição desses 1.600 anos, as dinastias dos egípcios podem ser facilmente incluídas nos limites da criação. Scaliger e G. Vossius propõem um plano no qual isso pode ser feito, se forem admitidas as adições do texto grego ao hebraico. Não se pode dar nenhuma importância à contagem grega do fato de a igreja grega, e a maioria de seus escritores, seguir essa contagem em vez da do hebraico, porque esta pode ter surgido de erro ou da ignorância do idioma hebraico, induzindo-os a seguir a versão mais universalmente aceita. XV. O anacronismo (anachronismos) na Septuaginta, no cálculo da vida dos patriarcas pós-diluvianos (em que estende o número de anos acima de 1.700 até o nascimento de Abraão - o hebraico perfazendo só 292 anos - porque adiciona pelo menos cem anos à vida dos patriarcas que viveram entre o dilúvio e o tempo de Abraão), não pode favorcccr a autenticidade dessa versão. Ele demonstra um flagrante erro, não importa de que fonte tenha surgido. As tentativas que Vossius e Walton fazem para confirmar isso não são suficientemente fortes para enfraquecer a autenticidade (authentian) do texto sacro (como Robert Baillie, Operís historiei et chronologici 1.4 [1668], pp. 20-41, poderosamente demonstra extensamente).
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