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Linguística e interpretação bíblica




A natureza da linguagem

A linguagem humana é um sistema de comunicação ou semiótico bastante sofisticado, 
complexo, mas basicamente impreciso. Ela tem origem num desejo, numa intenção, de comunicar. Ela se origina de forma inacessível numa mente humana.
O sociolinguista H. P. Grice sustentaria que o texto origina-se não numa mente, mas numa
pessoa, reagindo contra o conceito de um outro psicológico. A linguagem falada é primária,
é uma tentativa de expressar por som a intenção inacessível. A linguagem escrita é secunda­ria, 
conformando-se, de modo peculiar, à fonia primária falada de cada língua específica. A
linguagem escrita faz uso de uma análise mais ou menos arbitrária da linguagem falada, para
produzir um sistema de segundo nível de símbolos, representando mais ou menos acuradamente
as características da forma primária. Um orador produz uma sequência de sons, que depois são
analisados fonética e foneticamente para se identificar o sistema básico de som; gramaticalmente,
para se identificar aquilo que se denomina arbitrariamente de palavras, raízes e afixos;
e sintaticamente para se identificar sequências completas em seus elementos constituintes.
Pequenas unidades podem, nesse caso, ser sistematicamente identificadas. Unidades
mínimas de som são denominadas fonemas; unidades mínimas de forma gramatical são denominadas
morfemas. Em vez de falar de uma forma mínima de palavra, falamos de um lexema,
a unidade arbitrária que subjaz, por exemplo, formas de palavras tais como cantei, cantar, cantor,
cantando. Nesse exemplo, o lexema é “cant” (ver John Lyons, 101). As unidades sintáticas
mínimas são sintagmas. Nesses níveis inferiores de análise, o processo pode exigir certa medida
de objetividade. No entanto, no próximo nível, possivelmente o mais importante, o nível da
semântica, a identificação da unidade mínima, o semema, evidencia-se mais difícil (Robert de
Beaugrande e Wolfgang Dressler, 20). Certamente mais difícil é o processo de identificação do
significado de um texto falado mediante a soma total das contribuições de fonemas, morfemas,
sintagmas e sememas presentes no texto 
Mais difícil ainda é a tarefa de interpretar o texto escrito correspondente. Evidentemente,
o texto está agora grandemente despojado de seu componente fonético, representado pelos
símbolos visuais arbitrários, mas, em certa medida, ainda corresponde ao texto falado original.
A linguagem escrita, na prática, é uma linguagem com duas ausências: a ausência do orador e
a ausência dos referentes. A interpretação de um texto escrito envolve certa medida de diálogo
com o orador e algumas tentativas de identificação dos referentes.
Exatamente essas ausências provocam o problema da polissemia — a extensão de possíveis
significados das palavras usadas — num texto escrito. Com a presença do orador, experimenta-se
o que tem sido chamado de uma metafísica de presença; entretanto, isso poderia
ser mais bem chamado de uma metalinguística de presença, provendo seus próprios limites à
polissemia. Com orador e autor distantes, quer dizer, com um texto escrito, um grande número
de significados do texto pode ser identificado pelo leitor despojado, ou, possivelmente, pelo
liberado (ver Anthony C. Thiselton, 83).
Esse processo de interpretação da linguagem escrita é, em última análise, uma arte antes
que uma ciência, e menos ainda uma ciência exata. Estamos lidando com uma semiótica que
empregamos sem estarmos, em geral, abertamente conscientes do código que jaz por baixo
dela. Aprendemos a empregar hipérboles, lítotes e metáforas, a usar retórica como artifícios
individuais ou como esquemas sequenciais: aprendemos a identificar implicações, e mesmo a
criar para um texto um contexto apropriado, sem identificar conscientemente os artifícios que
empregamos. O significado daquilo que recebemos ou daquilo que transmitimos está codificado
de uma maneira bastante complexa e é interpretado por meio de referência a uma consciência
intuitiva do código, e não por uma avaliação elaborada, no entanto exata, das unidades do discurso
e da agregação de unidades de significado.
Por exemplo, um orador produziu uma sequência (ou um autor imaginou uma personagem
produzindo uma sequência) que poderia ser representada por Sou Esaú, teu primogênito
(Gn 27.19) (ou antes, pelo equivalente hebraico, um problema adicional). A informação registrada
nessa transcrição está profundamente editada. Nada sabemos (unicamente a partir desse
texto; embora o texto ao redor, o texto circundante, como veremos, nos diga muita coisa) acerca
do cenário em que a sequência foi elaborada; não sabemos que hora era do dia, e não sabemos
o que usavam as pessoas mencionadas; não nos é dito se o orador se curvou ou não, se estendeu
a mão num gesto paralinguístico, ou se fez algum outro gesto, nem sabemos qual era sua
expressão facial. Contudo, sabemos, a partir de nosso próprio uso da linguagem, que qualquer
uma dessas informações poderia ser importante na interpretação da sequência.
Assim, em Provérbios 6.12-14, o homem vil é descrito como aquele “que anda com a
perversidade na boca, acena com os olhos, arranha com os pés e faz sinais com os dedos. No
seu coração há perversidade; todo o tempo maquina o mal”. Aqui, há três gestos, mas ainda
não podemos estar seguros do significado de qualquer um deles. Provérbios 10.10 comenta: “O
que acena com os olhos causa aborrecimento, mas aquele que reprova com ousadia promove a
paz.” A frase paralela e semanticamente determinativa “aquele que reprova com ousadia” tem
a Septuaginta como fonte, visto que o texto hebraico correspondente, “e o insensato de lábios
vem a arruinar-se”, parece não ter relação com nenhuma antítese concebível para o significado
do aceno de olhos. Mas essa incerteza nos deixa sem nenhum guia seguro para o significado
do aceno de olhos. O salmista ora: “Não se alegrem de mim os meus inimigos gratuitos; não
pisquem os olhos os que sem causa me odeiam” (SI 35.19). Em contraste com o significado do
gesto ocidental contemporâneo, o acenar de olhos na cultura do AT nunca foi mera facécia: o
aceno de olhos está “sempre associado ao pecado” (ver , piscar [# 7975]; na cultura etíope
semita, piscar para uma mulher é convidá-la para fazer amor).
Não apenas estamos sem informação quanto ao gesto no texto de Jacó, mas também
carecemos de informações no tocante ao padrão de entonação empregado para a sequência, a
sonoridade mediana do discurso, o tom da voz do orador, ou o lugar da ênfase dentro da sequência.
Evidentemente, isso é típico do texto escrito, típico das duas ausências, do orador e
do referente.
Podemos ir mais longe: Apesar de o significado da sequência ser bastante claro, indicando
ser Esaú o nome do orador, sabemos de fato (quer por conhecimento geral ou por leitura
do texto circundante) que seu nome não era Esaú. Concluímos, então, que o significado de uma
sequência não é, no final das contas, meramente uma espécie de somatória dos significados dos
elementos constituintes que compreendem a sequência. Precisamos também conhecer o texto
circundante, o texto total do qual a sequência faz parte. Por outro lado, isso requer que identifiquemos
os limites do texto, aqueles limites dentro dos quais podemos localizar os indícios
que serviriam para resolver nossas incertezas exegéticas, antes de prosseguirmos numa análise
de qualquer parte dele. No presente exemplo, expandindo-se a análise do texto ao seu texto
circundante imediato ver-se-á que o nome do orador era Jacó, e que ele estava se apresentando
ao pai como sendo Esaú, seu irmão mais velho.
Somos confrontados aqui pela diferença essencial entre uma oração e uma declaração,
 uma distinção útil que, em geral, será mantida neste artigo. Uma oração não possui um
texto circundante imediato nem um contexto sociológico. A oração traduzida por “Sou Esaú,
teu primogênito” significa o que parece: que o orador é o primogênito de alguém e que leva
o nome de Esaú. A oração pode ser produzida por um orador ou pode ser escrita, mas não
há nenhum contexto que possa questionar a informação que está sendo comunicada dentro
dos limites dessa oração. Uma declaração possui tanto o contexto — o ambiente social na
qual ela é gerada — quanto o texto circundante, e o significado de uma declaração deve ser
determinado à luz do texto, do texto circundante e do contexto. Ou seja, o significado de
uma declaração não pode ser determinado meramente pela referência ao dicionário, ao
léxico, ao dicionário de sinônimos e à gramática. A abrangência possível de significados e
o provável significado de uma declaração antiga podem ser determinados em dicionários,
gramática, dicionário de sinônimos, léxico, contexto, texto circundante, enciclopédia, história,
geografia, e de um conhecimento de linguística e especialmente de sociolinguística e
de estrutura do discurso.
Além disso, notamos que cada declaração, embora possa usar “as mesmas” palavras
que outra declaração, terá, no entanto, um sentido único e singular porque ela necessariamente
possui um contexto único e singular. Para deixar bem claro esse ponto, se um orador produz a
declaração “Isso é um cavalo”, e outra pessoa repete “Isso é um cavalo”, o contexto temporal
da última declaração é diferente daquele da declaração anterior e isso será assim, mesmo que
o mesmo orador repita “a mesma” declaração.
O significado da segunda declaração deve ser diferente do da primeira precisamente
porque a segunda segue a primeira. O significado de cada declaração é determinado a partir de
uma avaliação dos elementos linguísticos que ela contém, do texto circundante do qual é parte,
e do contexto dentro do qual foi gerada.
Talvez se deva acrescentar aqui, que essa visão do processo de interpretação de um
texto é muito diferente do conceito de Schleiermacher de uma absorção psicológica no pró­prio texto.
 Hoje em dia, estamos sensatamente certos de que, em virtude de nossa pré-leitura
de textos, uma recriação objetiva e existencial de qualquer contexto antigo nos é negada. Entretanto,
isso não nos nega a tentativa de recriar objetivamente esse contexto, sem procurar
experimentá-lo existencialmente.

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